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Entre Lugares

Lara Andrade

Por um acaso cheguei à feira da praça Benedito Calixto. Tinha acabado de assistir a uma aula sobre publicação de livros. O cotidiano é uma inesgotável fonte de sugestões, foi uma das coisas – talvez a mais básica – que ouvi por lá. É até óbvio para quem já concluiu um curso de jornalismo, mas não deixa de ser um estímulo para sair da sala de aula e seguir a pé. Foi assim que deixei a escola, desviei do ponto de táxi bem à frente e me joguei em um bate pernas pelas ruas de Pinheiros, em São Paulo. Coisa que realmente só me permito em viagens (mas essa discussão fica para outro post). Comecei a caminhar pela rua Teodoro Sampaio e não sabia que daria na famosa Benedito, como chamam os mais íntimos. Uma grata surpresa!

Reprodução/Luiz Paulo Marques de SouzaAntiguidades, roupas vintage, cacarecos e raridades enchem os olhos e as sacolas dos colecionadores, decoradores e intelectuais, os descolados que não deixam a feira de mais de 20 anos sair de moda. Diferente da feira do MASP, que conheci no ano passado e é mais focada em arte, a da Benedito Calixto é uma ótima opção para encontrar móveis de madeira nobre e objetos para casa, como pratarias, azulejos de Burle Marx, lustres de cristal, anjos barrocos e rádios e vitrolas antigos. Mas a feira também faz a festa dos deejays e saudosistas. É possível encontrar lá discos de vinil raros da música popular brasileira e até exemplares de rock internacional e jazz americano. E para a alegria dos estilistas, que vivem de pesquisa de modelagem e referências, achados de grifes como Chanel, Gucci e Hermès são oferecidos a preços bem acessíveis, em algumas das três mil barraquinhas organizadas na praça.

Caminhando pelos corredores da Benedito, lembrei que uma vez em Paris visitei o Mercado das Pulgas ou Marché aux Puces. Modelo para todas as outras feiras de antiguidades no mundo, o Mercado das Pulgas surgiu no fim do século 19, sendo o primeiro de raridades. É preciso ter preparo físico para desvendar seus corredores, que formam um verdadeiro labirinto. Mas o enorme mercado recompensa os que tem fôlego com toda a sorte de objetos, brechós, antiquários e barracas de obras de arte.

Depois de uma volta pela Benedito – e até um retorno imaginário ao Mercado das Pulgas, na capital francesa – me rendi ao táxi. O motorista, prevendo a monotonia daquele engarrafamento, tratou logo de me distrair. E qual não foi a minha surpresa, nem quis saber muito sobre as praias do Ceará. Foi logo disparando seus conhecimentos sobre a área em que trabalha “há anos”, como fez questão de destacar. Falou sobre a reforma, realizada há cerca de três anos, que devolveu à região seu prestígio, deixando ainda mais charmosa a arborizada praça Benedito Calixto e os restaurantes e bares que ficam em torno daquele ponto de encontros. “No fim da tarde, todos esses lugares ficam apinhados de jovens”, garantiu, tentando me estimular um retorno ao local.

Eu já estava fora do táxi, quando ele adiou a arrancada para me chamar a atenção com conselhos que valem para todas as feiras, em qualquer lugar do mundo:

- Moça! Só compre uma peça rara se tiver certeza da sua originalidade e pechinche sempre, não duvide que o preço pode cair pela metade.

Trilha sonora:

Feiras mundo afora

Feira da Benedito Calixto, São Paulo

Na praça Benedito Calixto, entre as ruas Cardeal Arcoverde e Teodoro Sampaio, aos sábados.

Mercado das Pulgas, Paris

Entre as estações Porte d’Órleans e Porte de Clignancourt, nos fins de semana e na segunda-feira.

Feirinha da Gávea, Rio de Janeiro

Na praça Santos Dumont, ao lado do Jockey Club, aos domingos.

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