3 fev 2010
“O sentido da vida é buscar algum sentido!“ (Carlos Drummond De Andrade)
Talvez seja por já estar ouvindo a percussão cadenciada dos passos da velhice se aproximando que tenho enveredado, ultimamente, por trilhas mais filosóficas.
Na verdade, há muito que admiro a Filosofia, mas, ao mesmo tempo, que cultivo um misto de medo e respeito. Filosofia sempre me pareceu tal como um cume nevado. Lindo, à distância. De perto, perigoso e vacilante.
O fato que me intriga é que nunca ouvi falar de um filósofo feliz.
Em todas as categorias há gente feliz: bombeiros, atletas, políticos, coveiros e até professores. Mas, filósofo…
Não que se aspire tanto, atualmente, a felicidade. A maioria das pessoas preferiria muito mais ser rica, bonita e famosa do que ser feliz.
A questão é que, a não ser que você tenha a sensibilidade de um freezer, não há como não se deixar abalar por tragédias como essa do Haiti e até se permitir a dilemas do gênero: “qual o sentido disso?”
Pois é, e aí, há algum sentido nisso?
Faz sentido para alguém tal hecatombe que matou mais de cem mil pessoas e trouxe sofrimento para milhões?
Alguém por aí já se prestou ao corrosivo exercício de se pôr no lugar de uma pessoa que morreu, às vezes, depois de longos dias, agonizando sob os escombros?
Isso faz sentido para alguém?
Apesar disso tudo, considero até valoroso que haja ainda gente romântica nesse mundo. Mas, na verdade, estou convicto de que vida não é um filme e se fosse a direção seria do Tim Burton!
Ando meio confuso ultimamente. Talvez porque esteja me afastando, perigosamente, cada vez mais da data do primeiro aniversário e da idade das certezas. (Afinal, jovem é que sabe de tudo!)
Empenhado em preencher as lacunas patrocinadas pelo tempo, fui logo trombar com Sartre (sim, aquele singelo que afirmou que O inferno são os outros). O homem é condenado a ser livre e, por isso, responsável por tudo que está a sua volta. Afirma o francês feioso. Portanto, são as escolhas feitas pelo homem que definem o seu destino e não qualquer determinismo metafísico.
Nietzsche, por sua vez, renega toda e qualquer possibilidade de interferência divina (O homem é único responsável por seus atos e escolhas).
Freud decreta que alguém que se detenha a se questionar sobre o sentido da vida deveria se submeter a diversas sessões de psicoterapia porque, certamente, padeceria de alguma patologia mental.
Já o médico e psiquiatra vienense Viktor Frankl, um judeu que sobreviveu a Auschwitz, alega que O homem, por força de sua dimensão espiritual, pode encontrar sentido em cada situação da vida e dar-lhe uma resposta adequada. Seu pensamento é sempre positivo e fundamentado na idéia de que a humanidade tem uma meta além de si própria que confere sentido a sua existência. No seu livro Em Busca de Sentido, ele afirma: Não procurem o sucesso. Quanto mais o procurarem e o transfomarem num alvo, mais vocês vão errar. Porque o sucesso, como a felicidade, não pode ser perseguido; ele deve acontecer, e só tem lugar como efeito colateral de uma dedicação pessoal a uma causa maior que a pessoa, ou como subproduto da rendição pessoal a outro ser.
E ainda, no mesmo Em Busca de Sentido: Quero que vocês escutem o que sua consciência diz que devem fazer e coloquem-no em prática da melhor maneira possível. E então voces verão que a longo prazo – estou dizendo a longo prazo! – o sucesso vai perseguí-los, precisamente porque vocês esqueceram de pensar nele.
Eis um belo argumento que nenhum desses autores medíocres de livros de auto-ajuda presivíseis jamais professarão, infelizmente. Acho lindo! Sério mesmo! Por sinal, já faz tempo que afirmo que uma das coisas que mais atrapalha a felicidade é esse atual fetiche por ela. Nada me parece mais autista e egoísta! Algo como o cão perseguindo o próprio rabo…
Não obstante à boa vontade de Frankl, não consigo me apaziguar. A questão ainda perdura: existe sentido?
Há algum roteiro? Existem conexões? Tem algum “fio” que engendre os fatos que nos sucedem? Se tem, quem tece esse labirinto? Há mesmo alguém aí fora ou estamos sozinhos universo? E se existe alguém assistindo a esse filme que protagonizamos, “ele” interfere ou só assiste passivamente? Interfere? Qual foi a interferência no tsunami na Ásia, nos desmoronamentos de Angra, nas epidemias que assolam os países miseráveis do 3º mundo? Ou será que nós, criaturas simiescas de inteligência rudimentar, não conseguimos interpretar direito os planos de tão sapiente entidade superior? Devemos desistir, então, de tentar compreender e apenas nos resignarmos à vontade de Deus? Ou é tudo apenas o somatório das nossas escolhas com as forças misteriosas do acaso?
São muitas interrogações ecoando sobre o silêncio ensurdecedor das cacofonias, das preces gritadas nos cultos, dos cantos alçados para o céu, dos mantras randômicos entoados nos templos.
E sobre todas elas a velha pergunta existencial:
- Há algum sentido, afinal?
Talvez exista. Talvez precise existir.Qualquer sentido que você empreste…
Adoro filosofia..! Mas não aquelas ensinadas, e sim qndo o “autor” são os nossos próprios pensamentos…nossa própria filosofia!
rs
Beijos!
A filosofia instiga, maltrata, angustia e provoca reflexões profundas que só quem se entrega é capaz de fazer. Eu às vezes penso (às vezes só o impulso mesmo,rs) que é preciso se permitir enlouquecer e se curar. Haja análise depois….Faz parte de quem quer amadurecer. Quem quer isso? Bem vindo!
Beijo afetuoso. Bom te ver!
É, meu caro e confuso escritor. Quem não tem dúvidas? MAs acho que vc nunca será realmente feliz. Vc pensa demais na felicidade para isso. Não se sinta só. Felizes são distraídos.
Está se saindo melhor do que eu esperava, um filósofo de primeira. Digo isso exclusivamente pela curiosidade excessiva que os filósofos possuem, e a angústia por não ter as respostas. É como dizem os que se dizem filósofos “a felicidade não existe e sim momentos felizes”, somos nós quem fazemos a felicidade e o todo o resto, como você mesmo disse, só depende de nós, são as nossas escolhas. Não acredito que estejamos sós a natureza também é viva e todo o mal que plantamos nela, vamos colhêr o mal e assim vice-versa. Tudo o que acontece tanto de bom como de ruim conosco são consequências dos nossos atos dessa ou de outra vida….por que na realidade não teria sentido uma criança nascer com uma doença séria, por exemplo, se a mãe teve uma boa gestação e não fez nenhuma estravagância….há coisas que não entendemos e outras que não queremos ver!!!!
Beijooooooooooooo
Max, acho que você deveria parar de pensar tanto. Esses filósofos, além de morrerem infelizes, não conseguiram descobrir sentido em nada! Talvez seja assim, talvez seja daquele outro jeito. Nós ficamos com a melhor parte, pois ganhamos a vida e o direito de fazer o que quisermos com ela, seja bom ou ruim (no geral, estamos ficando com a segunda opção). Esse negócio de sentido, nós que inventamos, colocando algo que consideramos importante para o cargo. Mesmo assim, minha vida vai indo muito bem, sem sentido algum
Ser feliz eh um privilegio dos sabios; uma guerra para os corajosos; e a vitoria dos otimistas. Porque so quem tem sabedoria, sabe vive-la, so quem tem coragem sabe ir em busca dela e encontra-la nas pequenas coisas e so um otimista sabe se reconhecer feliz…..
Adorei esse texto, Max!!
há sentido sim, não só uma questão de conforto acreditar que há sentido, é uma questão de lógica. Beijos.
Para Viktor Frankl (1999), as pessoas nao deveriam ficar procurando um sentido abstrato, uma vez que o sentido derivado do engajamento, do otimismo, da transcendencia do interesse pessoal habilita a pessoa a manter sua saude mental e sua integridade mesmo nas mais adversas condicoes.
Adoro esse autor, assim como o Freud apesar de nao concordar com o que disse sobre ele. =)
Adorei esse texto. Dar um sentido na vida eh o que ha de mais importante para o ser humano.
beijos!
Ou seja, como diz o “filósofo”: “Deixa a vida me levar… Vida leva eu”! beijos…