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23 fev 2010

Receita para não emburrecer no carnaval

“Só não vai atrás do trio elétrico quem já morreu” (Caetano Veloso)

Morri. Talvez já tenha nascido morto, pois, confesso: Nunca, jamais, persegui trio Elétrico algum!

Natal, ano-novo, carnaval: acabaram as “datas” de felicidade obrigatória. Ótimo! Agora posso ser feliz espontaneamente!

Às vezes, me flagro conjecturando por qual razão odeio tanto esses comportamentos de massa. Não estou muito seguro, mas é bem possível que ocorra porque odeio a sensação de ser dirigido. Nunca lidei muito bem com hierarquias nem com comandos coletivos (Não teria a menor vocação para as forças armadas nem para igrejas, a não ser que eu fosse logo aceito como general ou – no mínimo – como bispo.)

Embora deteste a sensação de ser comandado, sei que não há como escapar para sempre de ser manipulado, seja pela mídia, seja pelo governo, seja por mulheres (A mais sofisticada e subliminar das manipulações! Você é adestrado e mal sente!).

Mas o fato é que, quando observo certos exercícios de poder sobre a massa, me salta um impulso voraz de me rebelar e só a muito custo me controlo. Ninguém sabe, por exemplo, o quanto me esforço para não ficar dando pulinhos logo na hora em que todo mundo se ajoelha na igreja. E quando começam a cantar e balançar os braços erguidos? Logo me bate uma vontade louca de sair gritando! Nos shows, é também complicado: quando o vocalista dá o comando de “sai do chão!”, “Sai do chão!” e todo mundo fica pinotando feito um canguru. Em mim, particularmente, me bate um desejo insano de passar umas rasteiras. Desprezo o conceito de ser coreografado. Não nasci para conviver com a turba. A massa é sempre acéfala, voraz e instintiva.

Por sinal, não sei se detesto o carnaval por causa da turba ou se odeio a turba por causa do carnaval. Mas sei que odeio ambos.

Por isso estabeleci uma rotina neste carnaval a fim de que pudesse sair desses dias tendo me contaminado o mínimo possível pelo espírito galopante da euforia infinita. Afinal, só os distraídos são felizes.

Receita para não emburrecer no carnaval:

1º passo: nunca, repito, nunca ligue a TV;

2º passo: retome o 1o passo e faça-o sem hesitações.

3º passo: alugue filmes instigantes e, se possível, não tão comerciais assim. Cito alguns aos quais assisti recentemente: Modigliani, A vida de David Gayle, Amor nos tempos de cólera, As sombras de Goya, Encurralados… Todos com roteiros muito bem escritos e com uma bela produção.

4º passo: leia! Eu, por exemplo, concluí a leitura do novo livro do Luís Fernando Veríssimo, “Os espiões”. De narrativa leve e ilustrada pelo humor fino de um dos mestres da crônica brasileira. No entanto, pessoalmente, considero que está longe de ser uma obra-prima, justamente porque o autor parece não se levar muito à sério nessa empreitada. Então, fica tudo soando meio como uma grande canastrice. Tem lá umas tiradas inteligentes, mas, no todo, carece de certa profundidade para se tornar mais verossímil. Veríssimo mas não tanto verossímil.

Outros livros que terminei recentemente merecem nota:

- Criança 44, Tom Rob Smith. Livro emprestado pelo Bernardo, que me disse que eu iria gostar. Gostei. Devolvo mais não. É uma história baseada em fatos verídicos que narra a caçada a Andrei Chikatilo, um serial killer que estuprava, mata e canibalizava crianças na opressora Rússia de Stalin (um livro leve para ser lido, preferivelmente, depois do almoço);

- Roma, Steven Sailor, romance histórico que vai retratar a “Cidade Eterna” desde antes da sua fundação até os turbulentos dias que sucedem o assassinado de Júlio César no senado romano;

- Padre Cícero: Poder, Fé e Guerra no Sertão, Lira Neto, indico sem medo. O jornalista Lira Neto sabe como lidar com as palavras e, porreprodução isso, sempre me serviu como uma referência positiva em como usar de termos regionais sem cair na vulgaridade. O elemento que salta mais aos olhos nessa impressionante biografia do emblemático líder religioso do sertão é que o autor não despreza o lado místico que está intrínseco à figura carísmatica do Padre Cícero. Aviso logo, é um livro volumoso, mas vale cada página;

capa- Europa invisível, Ivan Guimarães, o livro de estréia do meu amigo Ivan é um passeio poético pelos recantos mais charmosos do Velho Mundo. Com o seu sofisticado livro,  o autor deseja abrir os olhos dos viajantes para uma Europa que só pode ser efetivamente  vista  e, por conseguinte, apreciada caso se eduque, se apure o olhar. Vale conferir.

Portanto, com os recursos necessários à mão, é possível se escapar do carnaval sem grandes perdas neurológicas.

E quem quiser pular o carnaval que pule. A diversão é um direito legítimo. Mas eu não tenho culpa de não ter acesso àquela alegria toda, nem sei como fabricá-la. Nem acho que o carnaval acabe na quarta-feira de cinzas no Brasil. Na verdade, a folia neste país sempre me parece cotidiana e vitalícia.

Mas quem quiser pular que pule.

Eu ainda prefiro saltar que pular.

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12 comentários. Comente você também.

  1. Ana Bia disse:

    O que tu tanto odeia não é esse comportamento em massa não, Max, tu odeia o fato de tu não conseguir ser feliz assim. Se tu não se da tao bem assim com hierarquia, como tu faz quando a Irma Eulalia te manda fazer algo? Se ela pede pra fazer silencio, tu grita? Infelizmente sempre terá alguém hierarquicamente superior a gente, seja no trabalho, seja em casa ou ate mesmo o Estado Brasileiro, então já ta mais que na hora de você se acostumar com isso.
    Cara, te conheci menos amarguado!
    Que ta acontecendo? Credo, da é medo de tentar descobrir a causa dessa rebeldia. Calma um dia essa pessoa vai pagar na mesma moeda ( se já não for você que esta pagando! )
    beijo

  2. Caro, Max. Obrigado pelas palavras motivadoras sobre o Europa Invisível.Bem, quanto ao carnaval…nada contra a diversão e as fantasias,contanto que com moderação.kkkk! Abraço!

  3. Ingrid Pitombeira disse:

    Estou lendo “Padre Cícero: Poder, Fé e Guerra no Sertão, Lira Neto” e realmente é muito bom… Nada como um bom livro regional para matar a saudade da terrinha… Quanto aos filmes que vc assitiu, vi só “A vida de David Gayle” e gostei muito… Seu carnaval foi muito bom viu! Mas o meu foi melhor… Adivinha: é segredo… beijos…

  4. Adriana disse:

    “Se é carnaval tiro a máscara. No dia a dia palco e fantasia.” Minha mãe escreveu no livro dela: Tantas Máscaras. (Vou te mandar). É o meu sentimento com relação ao carnaval. Pessoas que encontram na folia a oportunidade de se dar bem a qualquer custo, sem qualquer preocupação com as consequências, sem apego nem aversão a nada. A catarse de uma vida inteira em quatro ou cinco dias. Hedonismo? Depois, 360 dias de aparências, relações contidas, controles, máscaras. Mas, quem somos nós para dizer que são eles (os que gostam) que estão errados ou correm o risco de tornarem-se emburrecidos ? Incomodados, inconformados, agoniados, rsrsrs. Valeu!

  5. isadora disse:

    discordo, ja que eu adooro carnaval. mas cada um tem sua opinião então pronto =D beijos

  6. Mariana e Natasha disse:

    Max, concordamos que ler bons livros e assistir a filmes interessantes é sempre bom. Mas o carnaval só acontece uma vez no ano, então devemos aproveitá-lo muito, mas sem exageros. Sua maneira de passar o carnaval é muito boa, mas com certeza existem outras opções como a nossa. Cada um tem sua maneira de aproveitar a vida. Abraço.

  7. alunos disse:

    Muito bom seu texto, gostamos das indicaçoes de livros, ( devolva o livro do bernardo ). Concordamos que hoje em dia tem muitas pessoas que têm suas vontades impostas pela midia e pela sociedade, mas passar o carnaval vendo filme tambem ja é demais.

    Parabéns pelo seu blog, esta super bacana!!!!!!!

    2° A
    André Gontijo
    Antonio Iago
    Ivo Rocha

  8. Taís Lima disse:

    Eu amo assistir filme e agora estou começando a criar o gosto pela leitura(no momento estou terminando de ler “O caçador de pipas” e é um livro muito bom!). Agora, quanto a forma de aproveitar o carnaval, eu gosto de lugar movimentado e da animação das pessoas nessa data, mas particulamente não gosto de mela-mela, até porque sempre tem confusão e isso não é nada interessante. Beijo ;*

  9. Manu Campos disse:

    Eu gosteii,claro que você sempre tem que ser o rebelde da situação,mas não esperava outra coisa =D

  10. Juliana disse:

    Meu caro, Max!
    Então, não sou a única pessoa do mundo que odeia carnaval. Bom saber!
    Belíssimo texto. Você me fez justiça! Até que enfim alguém diz tudo que eu queria, há tanto tempo, ter dito.
    Parabéns! Vc arrasa!

  11. Também nasci “descarnavalizada”, por isso nunca me atrevi a participar desta festança. Talvez por não ter e/ou curtir os muitos estimulos que nutrem a energia carnavalesca. Não tenho corpo de mulata, se bebo esmoreço e acho graça de tudo, não gosto de paredões de som, não gosto de filas, detesto maisena no cabelo, enfim não tenho o aparato canavalesco. No carnaval tenho outras muitas diversões, do ócio a sétima arte, todas menos barulhenta, é verdade, no entanto cheias de alegria.

  12. Nicolle Ribeiro disse:

    Ai, Max! Muito a tua cara esse post…

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