Max
“Contento-me com pouco, mas desejo muito.” (Miguel de Cervantes)
Madri 18.06.10
O tempo estava surpreendentemente agradável em Madri. Coisa rara nos dias derradeiros de junho. Eu bem sei, já que pude usufruir de intoleráveis 46º numa oportunidade que ficou, digamos, gravada em brasa na minha mente.
Entretanto, por fortuna, naquela manhã de verão, o clima estava mais do que apaziguado quando chegamos a Plaza de España. Lá estavam as estátuas das personagens mais reverenciadas da Literatura espanhola. Todo mundo do grupo volta as suas máquinas fotográficas para o nobre Quixote, enquanto eu prefiro endereçar a minha atenção para o seu relegado parceiro. Afinal, sou fã incondicional do Sancho Pança.
Que dupla fenomenal: Dom Quixote e Sancho Pança. No mundo da ficção, talvez só Sherlock Holmes & Watson e Batman & Robin poderiam rivalizar com os dois.
El ingenioso hidalgo Don Quixote de La Mancha, de Miguel de Cervantes, foi publicado no ano de 1605, justamente num período onde as Novelas de Cavalaria, que tinham já gozado de enorme popularidade, estavam em franca decadência. O “Cavaleiro da Triste Figura”, que partia para aventuras mirabolantes montado no seu pangaré Rocinante, representa mais do que um protagonista de uma farsa burlesca, mas, de fato, uma verdadeira síntese de qualquer sonhador.
Dom Quixote, além de tudo, é mais uma daquelas obras emblemáticas que viraram referência, não só para a cultura de um povo, mas também se tornaram ícones na edificação da sua própria língua, como, por exemplo, também ocorre na Itália, com A Divina Comédia, de Dante Alighieri; em Portugal, com Os Lusíadas, de Camões e na Alemanha, com o Fausto, de Goethe.
Mas do que vim tratar mesmo aqui foi do indefectível Sancho Pança.
Há uma qualidade intrínseca ao fiel escudeiro do fidalgo Quixote. Uma qualidade que – por sinal – não saberia nomear, contudo, o mais próximo que posso chegar seria algo parente da palavra lealdade. Porque, vejam só: Sancho Pança não via nada daquilo que Dom Quixote – nos seus devaneios – fantasiava. O comilão que, atuava como uma espécie de contraste ao cavaleiro idealista, se empenhava na maioria do tempo a tentar dissuadir o cavaleiro das suas barbaridades. Enquanto Dom Quixote era movido por sonhos e ilusões, Sancho Pança era um realista inveterado. Mas, o mais inusitado no enredo fantástico de Cervantes é que, mesmo sem enxergar dragões em vez de moinhos de vento ou exércitos inimigos em vez de rebanhos de cabras, ele investe com igual desprendimento e devoção contra os mesmos, seguindo o seu insano cavaleiro. E, comumente, também se dá mal. É bárbaro!
Mas, por que ele o fazia?
Por que era obediente ao seu senhor? É um bom argumento, mas ainda incompleto!
Por que ele era contagiado pelo sonho de Quixote? Bingo! Agora sim acertou em cheio!
Sancho Pança nada via além do banal, do ordinário, do fato comum, do hodierno!
Mas, a quimera, porque tem asas, brilho e força própria também tem o enorme poder de inspirar mais do que qualquer verdade prosaica.
E não é exatamente isso que todos nós cobiçamos? Não é o nosso anseio mais profundo? Inspiração! Algo pelo qual valha à pena se devotar, se doar, se entregar de corpo e alma. Um ideal, uma paixão, uma missão… Qualquer coisa que nos pareça maior do que qualquer perda ou renúncia, que nos pareça ser maior do que nós.
Não foi por nada que, em 2002, um grupo de autoridades relacionadas ao mundo literário elegeu “Dom Quixote” como o melhor livro de todos os tempos, porque, além da inventividade e da destreza da prosa de Cervantes, perdura um grande senso de identificação das pessoas com a sua obra. Dom Quixote é eterno porque, antes de tudo, todos nós temos no nosso pacote interno algo quixotesco, o qual pode ou não ser sufocado pelas sufocantes forças sancho-pancistas.
O Cavaleiro da Triste Figura e o seu fiel escudeiro nos remetem aos nossos mais recônditos desejos e à nossa criança interior que sonha em sonhar, deixando escapar o faz-de-conta, as fantasias e as brincadeiras há muito enterradas sobre toneladas de responsabilidades, consequências, multas e contas a pagar. O fato é que o mundo dos adultos é, por demais, chato. E o convite alienado de Dom Quixote e Sancho Pança nos alicia a por um elmo de mentira na cabeça e, montados num pangaré, perseguir miragens empunhando uma espada amassada, e salvar Dulcinéas pelo mundo afora, e enfrentar bestas ameaçadoras e a derrotar exércitos devastadores…
Quem pode negar a altivez da proposta dessa dupla de desgraçados?
- Desgraçados?
Desgraçados – sem graça, somos nós – com as nossas vicissitudes medíocres da rotina estéril do nosso cotidiano. Sem graça somos nós com os nossos hábitos apropriados, nossos atos comedidos, nossos comportamentos burocráticos, nossos padrões adequados e nossos costumes impostos. Nunca resgataremos donzelas em torres de castelos, nunca habitaremos qualquer estrela, nunca superaremos rivais formidáveis nas justas, nunca gozaremos a glória da vitória sobre o dragão monstruoso. Somos mais fronteiriços do que o desastrado do Sancho Pança, porque sequer uma vez nos abandonamos à utopia de sermos autênticos, espontâneos e – quem sabe até – felizes. Arraigada e absolutamente, desvairada e loucamente, felizes. Apenas.
João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.
(Quadrilha – Drummond)
Essa é uma coisa louca!
Há mesmo coisas descabidas que às vezes insistem em acometer.
Entre estas, gostar de quem não gosta de você é campeã na categoria vexame.
Essa situação constrangedora só é interessante quando ocorre quando é retratada pela Literatura, pelo Teatro ou pelo Cinema.
Mas, quando dá o azar de acontecer com a gente é uma verdadeira desgraça!
Há dor pior? Dor de dente um dentista cura, nem que tenha que arrancar. E para tudo há a morfina. A dor de amor é implacável! Você não arranca não! Nenhum remédio cura e o pior é que você não morre de dor de cotovelo! Ela destrói as defesas e você fica combalido! Mas não morre! Apela para todo tipo de santo, simpatia, estratégia humilhante, soluções etílicas e até para a Irmã Janaína (Irmã Janaína traz a pessoa amada!).
Entrei nesse assunto porque ontem, novamente, assisti ao “Fantasma da ópera”.
O filme retrata o famoso musical de autoria de Andrew Lloyd Weber que já atraiu mais de 15 milhões de pessoas aos teatros dos grandes centros culturais do mundo. O musical, por sua vez, é baseado num livro de Gaston Leroux, do início do século XX, o qual, como obra literária, nunca mereceu muita atenção.
A adaptação tem seus defeitos: o Fantasma é novo demais (talvez pela necessidade de aproximar o personagem ao público jovem); o outro componente do triângulo amoroso, o Raoul, está mais em evidência no filme do que na peça. No entanto, a grande virtude da película é possibilitar ao grande público a oportunidade de conhecer este clássico, se deliciar com a trilha sonora maravilhosa e sofrer com o drama deste amor não correspondido.
Christine é uma jovem corista. Órfã que, inusitadamente, foi educada artisticamente por um espectro, ao qual ela batiza de “Anjo da música”. Na verdade, um músico talentoso que se esconde nos subterrâneos do teatro de Paris e que tem o rosto terrivelmente deformado. Em virtude de apoio do “Fantasma”, ela se torna Primma donna do teatro de Paris. Então aparece o bonitinho. O Visconde com todas as características de príncipe. (Para dizer a verdade, o cara vem com um “Kit príncipe” completo: formoso, nobre, rico, boa-praça e tem até cavalo branco para complementar o pacote!). O resto já dá para adivinhar. O belo e a bela se apaixonam, noivam e vão casar. E o fantasma? Merece mal um obrigado.
É sempre bom se levar em conta um detalhe: O Fantasma é um monstro! Sim, um monstro da Literatura. Tal qual Drácula, Lobisomem, Frankenstein, Cuca. Quando ele aparecia, nos filmes da década de 20, chegava a provocar histeria e desmaios nos cinemas. Mas, entre os monstros, sem dúvidas, é o mais charmoso e o que mais desperta compaixão. Não é raro quem torça para que Christine fique com o Fantasma. Ele desperta o ímpeto de “torcer pelo bandido” mais do que qualquer outro vilão da ficção.
E para ser honesto, em termo de sedução e conteúdo, não há comparação. Na peça isso é mais fácil de ver. O Fantasma é hipnótico! É carisma ambulante! É magnetismo puro! Isso dá para observar claramente na ópera Don Juan, escrita pelo próprio. Onde o casal realiza um dueto glorioso. Inquietante até a medula.
Vivemos num mundo onde imagem é tudo. Estética é curriculum vitae. Seja belo e as portas mais facilmente se abrirão para você. “As feias que me perdoem, mas beleza é fundamental.” Como dizia Vinicius. Por isso, que a nossa sociedade faz qualquer sacrifício pela estética. Para ser fundamental.
O Fantasma é rejeitado pelo mundo em que vive em virtude da sua deformação. A humanidade perde um gênio e ganha um serial killer porque não consegue conviver com o feio. No entanto, por que o “Fantasma da ópera” é o clássico entre os musicais? Por que mesmo quem não entende a língua durante as apresentações se debulha de tanto chorar? Por que um monstro atrai tanta paixão?
- Não sei.
Talvez porque eu e você e todo mundo já gostou de alguém que lhe rejeitou.
Talvez porque no fundo – no fundo você saiba que a dor do Fantasma é a sua (ou já foi!)
Talvez porque nutrir-se tanta devoção por alguém é algo alienado demais. E belo demais!
Porque, se você amar alguém nesse exato momento e não for amado, você entende o fantasma.
Ele nos representa.
A todos nós que um dia amamos e não fomos amados.
Lisboa 17.06.10
“Meus antepassados vagaram 40 anos pelo deserto, porque mesmo em tempos bíblicos os homens tinham vergonha de perguntar o caminho.” (Elayne Boosler)
Odeio crônicas de viagem.
A não ser que sejam do Fernando Sabino ou do Rubem Braga, porque, afinal, é sacrilégio odiar Fernando Sabino e Rubem Braga.
Mas, não sendo alguma dos dois gênios, declaro, sem medo, odeio crônicas de viagem, as quais, em geral, não passam de um pavoneamento pretensioso, nada mais do que uma necessidade de se gabar publicamente, tal qual a foto sorridente ao lado do monumento famoso publicada no site de relacionamentos. Em suma: fanfarronice e literatura com o “l” mais minúsculo que existir.
E a categoria consegue ser ainda mais exímia na sua nocividade quando é petulante ao ponto da pretensão de fornecer dicas de viagem. Para que serve isso quando existe algo tão completo quanto o Frommers? Ele é pragmático, preciso e, principalmente, não se atreve a travestir-se de literário. Podemos sobreviver, portanto, ilesos de maiores prejuízos, sem qualquer informação embutida em relatos insolentes de jornadas turísticas.
Não obstante, rege a maioria das constituições que todo mundo tem direito à liberdade de expressão, por isso, as pessoas podem exercer seu livre arbítrio e, por exemplo, manifestar suas impressões sobre as suas próprias experiências.
É nesse contexto, e apenas justificado por específico argumento, que desejo tratar acerca das minhas estadas em Lisboa.
A questão é que não gostei Lisboa. Ao menos na primeira vez em que fui. Talvez tenha até sido porque embarquei para a capital portuguesa depois de conhecer Paris. Convenhamos: após Paris, nenhuma cidade é tão bonita assim!
Tom Jobim costumava dizer que o Brasil não é para principiantes.
Portugal também não é. Mais uma herança lusitana?
Hoje, no entanto, arrisco a comparar Lisboa com aquela garota que passa na rua, e que, mesmo não sendo, propriamente, destituída de atrativos, não chega a provocar torcicolos nos transeuntes. Entretanto, caso você tivesse a oportunidade de se sentar com ela à mesa, tomasse um cafezinho, batesse um longo papo, você certamente iria encontrar, além de fortes identificações, contrastes para lá de simpáticos, e, portanto, iria ponderar as suas avaliações iniciais. Não seria lá uma grande surpresa se, depois de algum tempo de convivência, você acabasse por achá-la, de fato, bela e fascinante.
Há quem diga que Lisboa é sem graça em dois dias e encantadora em uma semana. Conclusão inteligente.
Depois de tantas visitas e de certo convívio, posso dizer que aprendi a amar Lisboa.
Antes de tudo, porque, em particular e desde a primeira vista, Lisboa me remete ao passado. Não a um passado brasileiro e colonial, mas genético e pessoal. Meu passado
particular. Meu passado mais passado. A sensação que me dá é a de um real reconhecimento, como se visitasse à casa do meu avô que ele nunca teve. Não me restam dúvidas de que meu DNA perambulou pelo Chiado e pela Praça do Rossio. Antepassados meus, certamente, vagaram pelas ruas tortuosas da Alfama e do Bairro Alto. Quem sabe se empanturraram com o bacalhau, como hoje faço. E estalaram a língua ao apreciar o sabor do vinho verde, como hoje faço. E derramaram odres de lágrimas acompanhando o fado, como hoje faço quando degusto o doce Madredeus. Ou devoraram dezenas dos insubstituíveis pastéis de nata logo na inauguração da famosa casa aberta em Belém, em 1837.
Aventuro-me ainda a especular se os meus caros e ignotos antepassados teriam lido os poetas de Portugal. Ou melhor: teriam convivido com algum deles? Às vezes me pego fiando devaneios.
Não teria o Manuel – agora já criativamente batizado, por acaso, compartilhado da mesa do boêmio Camões; ou mesmo, não teria assistido na corte à estreia da Farsa de Inês Pereira, do Gil Vicente, e também afirmado a contragosto que não adiantava mais fazer nada porque, afinal, “agora Inês é morta”? Não teria, por acidente, esbarrado com o cambaleante Fernando Pessoa pela Rua do Comércio? Ou flertado com a tristonha Florbela Espanca na Universidade de Direito? Ou se indignado com as espirituosidades do irreverente Bocage no Café Nicola?
Não sei. Nunca saberei. Há coisas pretéritas demais. Mas estou certo de que algo do gênero cometeu o meu celebre antepassado lusitano. Se não, eu não teria, como todo bom português, esse olhar melancólico de imensa saudade de algo que nem sei.
Post-scriptum: Com certeza, posso afirmar: meu tatara-alguma-coisa, o Manuel, travou relações amistosas com o destemido Vasco da Gama. Tal empatia com o heróico português tem de ser algo mais que visceral, mas, ancestral.
Post-scriptum2: Depois, num outro texto sobre a capital portuguesa, poderei fornecer ao leitor interessado algumas dicas de programação extremamente úteis para qualquer turista que desembarque em terras lusitanas. A primeira coisa que um brasileiro precisa saber é que – quase sempre – você poderá falar a sua própria língua. E melhor, inclusive falar das novelas da globo, desde que você não conte o final, já que, lá, há um atraso de uns três meses. Mas é bárbaro! Você poderá entender até os cardápios, coisa rara na Europa. Um luxo! Quanto aos pontos turísticos, aconselho começar com a Torre de Belém. Que, por sinal, fica em Belém! Afinal, foi lá mesmo que tudo começou! Ao menos para nós, é claro. Continuando o tour, sugiro (…)
Londres 09 07 10
“Só quem é superficial conhece a si mesmo.” (Oscar Wilde)
Desci do metrô da Oxford street meio estabanado. Fazia calor em Londres e o céu brilhava num azul teimoso. Coisa esdrúxula. Londres não combina com dias claros. Sempre concebi Londres como descrevia Fernando Sabino: “Londres é a cidade invisível. Se tem fog ninguém a vê. Se não tem fog não é Londres.” Pois eu estava em Londres e não estava.
Estava apressado. Tinha que encontrar o grupo que viajava comigo até determinada hora e a tal da Oxford era um troço interminável.
Tinha que fazer uma aposta: para que lado? Decidi seguir para esquerda apenas por intuição, ou apenas porque sempre tive uma quedinha pela esquerda, mesmo que atualmente, esses conceitos de esquerda, centro, direita estejam profundamente descaracterizados.
Não dei dez passos e percebi que estava com fome. Por sinal. Muita fome. O breakfast estava na memória como um episódio remoto e o pior é que não tinha o menor tempo para me sentar para ingerir alguma coisa. Mas ainda bem que existem fastfoods no mundo – e tantos, por sinal. Felicitei-me por encontrar um logo ali na esquina. Peguei a fila e saí de lá agarrado com um sanduíche, um refrigerante e apenas um guardanapo. Não entendo a razão, mas é mundial esse hábito de distribuírem tão poucos guardanapos aos comensais. Será que os donos de lanchonetes contam os guardanapos? Pior ainda é quando se esquece como se diz guardanapo em inglês. Uma desgraça! Então foi o jeito sair pela rua de Londres com um baita pão na mão minando maionese na boca, na roupa, no chão e com uma grave e crescente sensação de que a qualquer hora um súdito da rainha poderia me interpelar por aquele comportamento questionável.
Pensamento gratuito, porque numa megalópole onde sobram criaturas adornadas de piercings nos lugares mais insondáveis, tatoos de todas dimensões, cortes de cabelos das mais improváveis formas, quem é que se incomodaria com meros borrões de molho espalhados pelo meu corpo?
Mas, continuei o meu caminho. Doido para encontrar com alguém a quem eu pudesse pedir pontos de referência para ajudar na minha busca. O diabo era que eu tinha lido em algum lugar ou ouvido de alguém que nunca, nunquinha, pedisse informações para transeuntes ordinários em Londres, porque, diferente de Fortaleza, onde todo
mundo pára para explicar e chega até a lhe levar, alegremente, ao local – ou de Minas Gerais – onde costumam apontar acompanhado de um indeterminado “bem ali”, mesmo quando são quilômetros de distância – já em Londres ninguém se deteria para indicar destino algum.
- Caso queira informações, procure um policial! – Era a informação que repercutia na minha memória naquele momento.
E quem é que encontrava qualquer policial?
Quem é que pode confiar numa cidade sem policiais?
Eu estava a tanto tempo zanzando desorientado que até me passou pela cabeça furtar alguma coisa de uma loja e sair correndo para ver se aparecia algum guarda. Será que ele acreditaria em mim quando fosse detido que eu queria apenas uma indicação?
Em todo caso, preferi continuar firme no meu caminho incerto, e, ainda bem que não fiz nada. Lembrei-me, de súbito, do caso infeliz do Jean Charles e de que a polícia londrina não tem lá grande apreço por brasileiros.
Acabei o sanduíche, o que me deixou momentaneamente saciado e sujo. Mas não resolveu o meu principal problema: estava definitivamente perdido. Mas, gostei. Dá certa liberdade não se ter rumo, ninguém saber de você, nem você mesmo. Comecei a curtir a coisa e continuei minha trilha norteando a algum lugar ignoto.
Já estava perdido mesmo então decidi relaxar, diminuí o passo e me detive em fazer uma das coisas que mais me atrai: observar a fauna humana e me dispus a dar mais conta do mundo incessante acontecendo ao meu redor, dos caminhantes ao meu lado, cada um absorto nas suas histórias e nos seus pensamentos secretos; dos casais risonhos sentados às mesas das calçadas, sorvendo a cerveja quente e as palavras das bocas dos amados; dos engravatados sérios e apressados se esquivando de turistas atabalhoados, como eu; duma infinitude de idiomas sussurrados, entrecortados e gritados ao celular; dos aromas de temperos exóticos oriundos das mais diversas latitudes do planeta, das coisas, das gentes, das vicissitudes, todas plurais, concomitantes, ao mesmo tempo e agora.
A liberdade acontece nas horas mais inusitadas e, também, a compreensão das nossas enormes diferenças e das nossas inquestionáveis semelhanças. Somos seres humanos. Tudo isso e apenas isso.
Talvez fosse pela circunstância incomum, ver-se perdido em Londres, ou pelo azul do céu, ou pelo gosto saboroso e salgado do presunto fresco na boca, mas me apeteci ali por estar vivo e por ser quem sou, inclusive humano, uma raça tão diversa e repleta de contrastes. Uma raça tão cheia de repertórios.
Demorei ainda para encontrar quem procurava. Mas, sem problemas, estava satisfeito, antes havia me encontrado.
“Todos sabemos que cada dia que nasce é o primeiro para uns e será o último para outros e que, para a maioria, é só um dia mais.” (José Saramago)
Madri, no dia que soube da morte de um deus. (19.07.2010)
O que se faz quando morre um Saramago?
- Nada!
Não há o que se fazer.
Não há suplência adequada, nem substitutos com senha na mão, nem próteses à altura nem elenco no banco para ocupar seu lugar.
Quando morre um deus não existe nada que preencha a herança da sua lacuna vazia, oca, abissal, abismal… A não ser a lembrança das suas palavras pairando sobre o limbo. Morreu o verdadeiro mago da Língua Portuguesa. Todos nós, amantes da última flor do Lácio, não superaremos tão facilmente a ausência do seu maior menestrel.
Resta-nos, quem sabe, apenas nos resignarmos à sua falta, nos persignarmos e nos condenarmos ao silêncio vindouro das suas palavras nunca mais sussurradas no branco de um papel carente da sua mão talentosa. O papel sentirá falta do Velho. Não mais será dignificado por novas letras suas. Por sorte, ainda há as antigas. E tantas.
O que se faz quando morre um Saramago?
- Nada!
Só a mudez solene consegue, de fato, homenagear grandes perdas.
E o mundo sabe o que perde com a saída de cena do Bardo lusitano?
Não estou muito certo de que o mundo se deu conta do que lhe foi subtraído com o desaparecimento de um Saramago. Não estou seguro de que realmente a humanidade se importou, ou se apenas mitigou a dor do seu sumiço. Faz mal. Deveria era prantear profusamente, deveria vestir as almas de luto ou dançar um tango de madrugada, pois deveria saber que um mundo sem Saramago é um mundo pior.
Bem que a Morte poderia ter sido uma funcionária displicente, ao menos, dessa vez.
“Reminiscências fazem alguém sentir-se deliciosamente maduro e triste.” (Bernard Shaw)
O ENGARRAFAMENTO ESTAVA BESTIAL. Como não bastasse a confusão corriqueira do trânsito em Fortaleza, para agravar o nível de infernilidade, ainda vigorava uma greve de ônibus. Não iria chegar a casa tão cedo.
Ela decidiu não se estressar, tirou o cinto e deitou-se ali mesmo no meu colo. Sinto confessar que não era a sua primeira vez. Que o departamento de trânsito não o leia nem me multe. Esse ano já está recheado demais de multas. Não me incomodaria tanto se o Estado fosse tão pródigo em fiscalizar os corruptos quanto é para monitorar o cidadão comum, ou apenas, nos desse algum retorno das avalanches de taxações que nos impõe.
Mas, o fato é que ela se deitou no meu colo trazendo a sua camisola velhinha e preferida que, propositalmente, deixava no carro justamente com esse objetivo.
Ela que estava certa. Apenas dez anos e já tão sábia. Tem hora que o melhor que a gente faz é mesmo relaxar.
Decidi, portanto, seguir o seu exemplo, catei aquele velho cd nunca mais escutado e me deixei embalar pela melodia, mas principalmente, pelas memórias que ela me insinuava.
Eis ali o bonde para o passado. Dei com a mão e ele parou me transportando para vinte anos atrás. Para o rapazinho mirrado e assoberbado de sonhos e boas intenções que outrora fui. A música tem essa magia. Não havia mais a cacofonia das buzinas nem as demandas insistentes dos desvalidos dos semáforos. A música me tinha resgatado.
Eu apenas tinha chegado à Itália. Meu conhecimento de italiano era excelente exclusivamente para cumprimentar, agradecer, reclamar comida e perguntar onde era o banheiro. Todavia, não pude evitar que aquele irlandês desastrado que dividia quarto comigo, com o israelita e o holandês, na república de estudantes, me largasse no chão naquela partida de futebol e, por isso, me enviasse para o hospital mais perto.
Como eu disse, não sabia ainda lá grande coisa do idioma, mas deu para entender quando o médico repetiu algumas vezes a palavra chirurgia.
O pior era que, não obstante a dor atroz que me martelava o membro, eu, contraditoriamente, ficava constantemente acenando “legal” para todo mundo. Não conseguia mover o dedo. Havia rompido os ligamentos do polegar da mão direita. Resultado: chirurgia. Na verdade, eu não estava achando nada legal: estava longe da minha família, dos meus amigos, num país estranho e ainda iriam me cortar. Quis chorar ali mesmo na frente do médico. Mas era do Ceará e banquei macho. Chorei depois, escondido.
Um amigo italiano foi solidário, me emprestou um moleton, um bocado de revistinha em quadrinho – em italiano, claro – um walkman e uma fita cassete. Foram sete dias de internamento. Sete dias ouvindo as mesmas músicas. Aquela mesma música que escutava no carro.
Lembro-me que meu quarto era habitado por mais quatro pacientes. E eu que tive que ser mais do que paciente. O mais novo havia participado da segunda guerra. Ficamos até amigos e meu italiano bem que melhorou. Descobri inclusive que “Topolino” (ratinho) é como o Mickey Mouse é conhecido na Itália, veja só.
No penúltimo dia de internação tive duas surpresas. Meus colegas foram me visitar. Havíamos nos conhecido há pouco tempo, mas foram lá e levaram o que eu mais gostava de comer:
panqueca recheada de geleia de maçã. Eu havia feito a geleia e me orgulhara muito disso. Aprendi ainda a fazer geleia de peras e de cerejas, ambas colhidas no meu quintal. Adorava aquele quintal. Criei-me na Parangaba. Na minha casa, havia mamoeiros e um abacateiro que davam excelentes frutas, mas nos campos da Toscana, onde morava, eu colhia uvas, peras, cerejas e ameixas. Era um quintal onde verdejavam sobrenomes: Carvalhos, Pereiras, Parreiras…
A outra surpresa não foi nada boa. O veterano da segunda guerra morrera durante a noite. Morreu dormindo. Não deu um pio. Morreu bem.
Ao contrário do que possa parecer, não tenho saudades da minha juventude. Fui feliz muitas vezes, fui infeliz outras. Não fantasio nem uso maquiagem para retocar nada. Sei apenas que os momentos que mais valeram à pena foram aqueles que me senti realmente vivo. É o que importa, afinal. Não viver. Sentir-se vivo.
A música rolava.
As músicas.
Temas de um passado.
Passado?
Por que passado?
Eu estava vivo. Poderia sentir-me vivo. Estava vivo.
Ela estava deitada no meu colo. Linda, morna, fascinante na meninice do seu quase dormir. O paraíso todo ali pesando tão pouco sobre o meu colo. O passado era um bom lugar para se visitar, às vezes. Mas o presente estava ali tão perto, tão ao alcance da mão.
Então, acarinhei o meu presente. Meu melhor presente.
O pior sofrimento está na solidão de quem o acompanha.
André Malraux
SOU UMA PESSOA CONTRADITÓRIA, MAS TENHO ANDADO MEIO PUTO com algumas contradições ultimamente.
Eis a era da anomalia!
Não acredito que tenha havido algum momento na história da humanidade mais antagônico do que esse que vivemos agora. Como bem a apelidou o maior historiador dos nossos tempos, Eric Hobsbawm, vivemos A era dos extremos. Uma época anacrônica, de um mundo pós-moderno, apinhado de expedientes tecnológicos de última geração, de pessoas eternamente on line, à distância de um mero click, interligadas 24 horas por dia através de satélites, cabos de fibra ótica, aparelhos celulares e por infinidades de recursos virtuais como messenger, skype, meebo, formspring, twitter, além de inseridas em trocentas comunidades do orkut, myspace, facebook, viajando.com, desesperando.com, par perfeito, par imperfeito (…) Contudo, mesmo assim, ainda demasiadamente afeto-dependentes, famintas e sedentas de relacionamentos e agrados. A incoerência não poderia ser maior. A era da comunicação é, talvez, o momento em que o homem mais padeça em virtude da solidão
Nossos avôs é que eram resistentes. Eles sofreram toda sorte de carestia, mas não se abalavam nem se abalam tão facilmente. Hoje, não. Hoje é o império da carência. O reino dos traumas. O monopólio das síndromes. Todo mundo tem a sua, algumas já de estimação.Tanto que, particularmente, tenho lá minhas dúvidas se certas doenças foram descobertas ou se foram (auto) atribuídas por terem sido batizadas. É assim: nomeie uma doença e você terá uma epidemia.
Bem sabemos que todo mundo tem mesmo alguma mazela, mas, por vezes, temos a opção de acender uma vela para avaliá-la ou um holofote para divulgá-la. Como fazemos parte de uma raça, tantas vezes, peçonhenta, somos muito pródigos em maquiar os nossos aleijões enquanto iluminamos fartamente as distorções alheias.
Mas voltando à questão da solidão – O que eu faço com essa minha digressão crônica?! – Nada altera muito essa condição de “solidão acompanhada” a qual o ser humano atual parece estar condenado. Já disse e repito: a culpa é do amor.
O romantismo, que deveria ser apenas mais uma escola literária, ou uma fase da história, já plenamente superadas nesse século marcado pelo cinismo e pragmatismo, tomou conta da mente das pessoas. Uma espécie de abdução! Tal qual a umidade que se instala nas paredes das casas no período chuvoso, o romantismo se infiltrou nos pilares da nossa estrutura existencial, tanto que agora não tem mais jeito: o amor se entranhou no âmago do ser e do fazer humano. Amor é cultural e social.
O problema é que todo mundo precisa em demasia de amor e carinho, já que toda criatura sobre a Terra é um indivíduo carente. Somos todos semelhantes nesse quesito: temos uma enorme demanda de afeto! Eu diria que é um poço sem fundo, um depositário infinito! E, pior, quanto mais temos mais somos dependentes! O amor urge!
Faz tempo que denuncio: a culpa é das novelas adocicadas, dos livros açucarados, das músicas glicosadas. O mel escorre das bocas muito fluentemente. “Te amo” virou uma banalidade professada por qualquer boca a qualquer hora para qualquer um. Pecamos. Usar santos nomes em vão é sempre pecado, do naipe pior do que mortal, imortal.
Quanto desse amor é fabricado apenas para mitigar a solidão é que eu não sei nem sou juiz de nada para julgar.
Mas posso me outorgar o direito de afirmar que amor, amor mesmo, é algo bem maior do que quaisquer emoções pasteurizadas que venhamos a usar como próteses para nossas almas mutiladas.
Nós estamos sós porque somos arrogantes demais, desagradáveis demais, ou individualistas demais. No reinado do egoísmo nunca vigorará o tuísmo que reclama o amor de quem ama. E no mandato do ego nunca haverá, de fato, eu e tu.
Porque amor não é fenômeno pop, não é filme, nem livro, nem canção. O amor é o sublime ambulante. O amor é o sublime ambulante.
Amor não se mendiga. Amor não é carência, é dádiva mútua.
Pois amemos o amor.
“Todas as viagens são lindas, mesmo as que fizeres nas ruas de teu bairro. O encanto dependerá do teu estado de alma.” (Ribeiro Couto)
No filme, de título muito mal traduzido, “O amor está no ar” (Up on the air, em inglês), o protagonista personificado pelo carismático George Clonney afirma, peremptoriamente, que “viver é deslocar-se”.
É uma máxima a se considerar.
Se consultássemos os nossos antigos alfarrábios das origens da humanidade tenderíamos a concordar com a afirmativa, afinal, os registros atestam claramente que nós, seres humanos, temos bem mais tempo no nosso curriculum de prática do nomadismo do que de vida gregária ou sedentária.
O DNA humano é, portanto, irrequieto.
Eu, para agravar, além da minha herança ancestral ainda trago a carga genética do meu pai, um marinheiro que queria varrer o mundo e, por ter alcançado apenas a patente de cabo, acabou apenas varrendo convés de navios. Talvez isso tudo explique a razão de estrada sempre me exercer tal fascínio…
Eu tinha apenas 14 anos quando meti na cabeça que queria conhecer o mundo. Tinha ouvido falar pela primeira vez de certo Michelangelo na aula de História. Um artista brilhante, mas tão afetado que era bem capaz de eternizar desafetos no quinto dos infernos em suas pinturas da Capela Sistina. Fui arrebatado na hora. Prometi-me que um dia veria o inferno de perto, e o céu também. De Michelangelo, é claro.
Se “viver é deslocar-se”, somos todos viajantes, passageiros nessa grande lotação – sempre em movimento – chamada Planeta Terra.
Particularmente, acho que sempre fui um passageiro. Aos dezoito anos, frequentava uma média de dez ônibus por dia. A Parangaba é longe, gente. Confiem em mim. A Parangaba é muito longe.
Li demais dentro de ônibus. Li, estudei, corrigi provas… Não sei se meu sonho de consumo na época era apenas um lugarzinho melhor onde pudesse ficar sentado e futricar nos meus livros. Sei que devo ter sido considerado maluco por muitos, já que conjugar as diversas declinações do Latim e cair no choro recitando baixinho Manuel Bandeira não eram práticas que pudessem comprovar facilmente a minha sanidade.
Espero eu que não seja qualquer ofensa, mas li “O velho e o mar”, que conferiu o Nobel a Hemingway, no Parangaba-Mucuripe. Li de uma vez só. Não é um livro grande, mas um grande livro. E torci para que não chegasse na minha parada enquanto eu não o terminasse. Não chegou. Como eu disse: é muito longe!
Quando acabou, chorei. Já avisei: música, filme, livro e o meu time podem me levar às lágrimas! Mas, cabe aqui uma questão: como um livro com – praticamente – apenas dois personagens, sendo um deles um peixe, pode ser tão genial?
Se inveja matasse…
Costumo dizer que não fossem os ônibus minha listagem de livros lidos teria sido hiperbolicamente menor.
No entanto, embora o transporte coletivo tenha sido de tal utilidade para mim, havia seduções as quais eu não conseguia resistir.
Muitas vezes quando chovia e quando não dava para recusar o convite da chuva, eu retornava caminhando os oito quilômetros da Escola Técnica até a minha casa. Por quê? Ah não sei! Sempre amei a chuva. Economizava as passagens. E era gostosa a sensação de entrar em casa encharcado de água e de sonhos.
Sonhos e espinhas são intrínsecos à juventude.
Jovens é que têm o hábito de manter seu departamento de sonhos em pleno vapor. É só depois, por força do temperamento do acaso e das suas próprias inabilidades, que engavetamos um aqui, entulhamos outro acolá. Viver é um eterno jogo entre realizar e renunciar sonhos.
Hoje não sei, ao certo, o placar.
Sei que alguns foram extraviados pelo caminho.
Mas, já outros…
Aos vinte anos, meti cem dólares no bolso e as poucas roupas que tinha numa surrada bolsa verde, beijei minha mãe chorosa, meu pai
orgulhoso e saí de casa à cata dos meus sonhos. “Veni, vidi, vici” era o pensamento que saltitava na minha mente quando atravessei o Foro Romano e, emocionado, me postei defronte à estátua do seu autor, o grande general Júlio César. Vim, vi, venci.
Roma: a Cidade Eterna, aquela para onde se encaminham todas as estradas. Também a minha se direcionara para ali. Era a primeira vez na cidade “onde as pedras falam”. Tantas outras vezes viriam depois, mas nunca com igual emoção. Afinal, há momento mais feliz que o dia da materialização de um sonho?
Hoje, após tantos anos e depois de tantos cacos de sonhos jogados debaixo dos tapetes, sei que sonhos também são passageiros, não só porque – como todas as coisas debaixo do sol – eles também passam. Mas, principalmente, porque são coisas vivas, eles também se movem.
- Mas, digam-me, para onde vão os sonhos depois que se realizam?
P.S.: Ah! E o inferno de Michelangelo é mesmo uma apoteose!
“Não é que eu tenha medo de morrer. É que eu não quero estar lá quando isso acontecer.” (Woody Allen)
- Quem não tem medo de morrer?
Vou nem mentir, eu tenho sim.
Não acredito que seja o mais apavorado de todos, contudo.
Mas, que tenho medo, tenho.
Lógico que tenho.
Você não tem?
Cervantes dizia que havia remédio para tudo, exceto para morte. – Não é que ele não me empolgou muito?
Ciro Pellicano, por sua vez, declarou que não tinha medo da morte, desde que não fosse a sua.
Pois eu consigo me lembrar exatamente do momento em que descobri que as pessoas morriam. É claro que já sabia, mas não sei se tinha a real noção das qualidades de universalidade e perenidade dos quais só a morte sabe ser detentora. Eu tive uma crise de nervos depois de assistir à matéria do Fantástico que tratava de pessoas que teriam sido enterradas ainda vivas e que, depois, teriam “despertado” daquele estado cataléptico numa condição nada favorável.
Hoje, percebo que a razão do meu vexame não foi em função dos infelizes que tiveram o triste destino de terem sido enterrados vivos, mas, unicamente, porque havia compreendido que pessoas eram enterradas.
Paul Road costumava dizer que o medo da morte nos impede de viver e não de morrer. Afinal, por mais medo que um sujeito tenha, o máximo que ele pode fazer é adiá-la.
Já o famoso filósofo Epicuro declarava que não compreendia o motivo do nosso medo da morte, pois, como dizia, enquanto somos, a morte não existe, e quando ela passa a existir, nós deixamos de ser.
Coisa de filósofo. Espero, um dia, ter um pensamento tão elevado ou uma coragem mais férrea.
No atual momento, não sinto tanta resignação. Talvez porque já esteja naquela idade em que se costuma ter raiva de si mesmo por não ter feito anteriormente qualquer programa de aposentadoria privada.
Tenho quarenta anos e tenho percebido os deméritos do meu corpo a cada dia que passa da mesma maneira que avalio os problemas que
vêm aparecendo no meu carro, o qual, embora seja simples, comprei novo, mas que – como é natural – também não escapa da sina dos efeitos nocivos do relógio que avança. Então, há uns arranhões ali, uns amassados aqui, alguns rangidos acolá…
Na verdade, o fato que poucos querem encarar é que, por bom negócio que pareça ser a maturidade ou a experiência, nada é melhor do que a juventude. Pena que, por incompatibilidade de tempo, não possamos ter as duas ferramentas ao mesmo tempo.
Observo, por exemplo, que atualmente, como e bebo bem menos que o fazia há dez anos e que pratico muito mais atividades físicas que praticava no mesmo período. No entanto, tem algo mais difícil do que perder um quilo?
Na época, quando me machucava jogando futebol, rapidamente, estava – de novo -fazendo raiva aos meus companheiros de time por não ser muito afeito a compartilhar a bola.
Hoje, não tem jeito, tenho tornozelos eternamente inchados e uma virilha que protesta a cada passo que dou.
Mas o pior de tudo é a dor que sinto nas costas. Puxa vida! O que me salva, ainda, é o meu apelo diário para que a minha filha passeie sobre elas. Coisa que, ultimamente, ela só faz mediante suborno ou chantagem, muito bem feita.
E o meu cabelo, nunca foi uma maravilha, mas atualmente anda cedendo aos convites da gravidade antes do meu corpo. É o chão começando a chamar.
É o desgraçado do tempo exercendo a sua crueldade homeopática.
É como dizia Rubem Braga: Ultimamente, têm passado muitos anos.
Lembro-me, no entanto, de ter sido grato à ação do tempo em algumas ocasiões. Exemplo: aos quinze anos, não é que tinha espinhas. Na verdade, as espinhas é que se incomodavam com a minha existência. O tempo, nesse ponto, ajudou.
Tempo é troço fatalista.
Mas, vou parar de falar desse assunto antes que me encomendem uma bengala, uma dentadura, ou comprimidos azuis, ou, pior, ambos.
“Não li nenhuma das minhas autobiografias.” (Elisabeth Taylor)
Rachel afirmava que todo livro era autobiográfico.
Rachel era mesmo genial.
Não só porque foi a 1ª mulher que vestiu o fardão da Academia Brasileira de Letras. Não só porque escreveu maravilhas tais como O quinze e Memorial de Maria Moura. Não só, também, porque era vascaína de carteirinha, literalmente. Rachel era uma virtuose porque compreendia como ninguém a natureza humana e conseguia importá-la bem para o papel.
Como não há como contradizer Rachel, decidi que vou fazer um livro biográfico! Por sinal, quero fazer um livro autobiográfico!
Melhor ainda: fazer um livro autobiográfico que depois vire filme. Quero escrever o roteiro e sugerir o nome de um charmoso ator para
protagonizá-lo, e depois ainda vou declarar que é uma “Biografia não autorizada”!
Recentemente, Ray Charles, Chico Xavier, Nelson Mandela, o cachorro Marley, a puta surfistinha, Cazuza e até o Lula tiveram detalhes da sua história revelada pela indústria editorial e cinematográfica.
Então, por que não eu?! Por que não?
- Mas, que estilo de filme seria?
- Um dramalhão meio mexicano, talvez?
- Ou uma comédia? Tragicomédia, sei lá!
(Você, leitor criativo, não vá especulando as modalidades de filmes que você conhece que é falta de respeito e não lhe dei intimidade para isso!)
Mas quem seria “eu” na telona?!
Já sei: George Clooney!
E com aquela cara de canastrão inveterado, ele declararia na entrevista – com certo ar blasé – como fez Morgan Freeman ao falar de Mandela: “adorei representá-lo, não só porque o admiro muito, mas antes de tudo porque me pareço com ele.”
Será que todo mundo acha que a sua vida mereceria um livro ou um filme?
Antes, nos tempos pretéritos onde não me preocupava com as dores contínuas nas minhas costas, eu costumava cevar essa fantasia. Tinha até as minhas trilhas sonoras. Momentos tristes seriam acompanhados pela música mais triste que conheço: everybody hurts, do REM. Já, nos felizes, se escutaria, triunfante, ao fundo a 5ª sinfonia de Beethoven.
Devo dizer que, até hoje, não estou muito certo de qual seria o hit mais tocado…
Quanto ao elenco, tenho já, de sobra, coadjuvantes, e o que não falta é antagonista. Mas o que seria difícil mesmo de definir seria o futuro do protagonista. Acho que preciso de mais roteiristas. Nada como ter outras opiniões.
Em contrapartida, tenho uma teoria sobre estas obras biográficas. Não serão só mais uma necessidade desse grande público voyeur de saber o que aprontaram as celebridades? Não seria apenas mais um exercício frívolo de paparazzi embrulhado em película de Cinema ?! Camuflagem de caras?!
- É verdade que Ray Charles era cego, mas não era besta em relação às mulheres?
- Cole Porter era ou não era entendido? (de jazz!)
- Alexandre estava mais ou não para Alexandra?
- Chico Xavier levou a sério demais o amigo imaginário da infância?
Além de tudo, biografado é pasteurizado demais. Maquiado e editado demais!
Embora que, nesse caso, a veridicidade não seja obrigatoriamente absoluta e necessária, pois o romance e o cinema não têm nenhum “compromisso com a verdade” (quem tem esse objetivo é a História e o documentário!). Mas o que dá para perceber é que roteiristas bons estão mesmo em escassez, porque, na falta de boas histórias, a receita é simples: pegam a vida de um cidadão famoso, com ou sem a autorização dos envolvidos, dão uma turbinada, e servem ainda quente.
Por isso que quero um livro ou um filme sobre mim. Para que eu pareça melhor do que sou. O diretor só terá que ser benevolente.
Portanto, não poderá dizer (sempre) a verdade!
- Sei lá… Tudo é tão complexo!
Sei apenas que continuo escrevendo o meu roteiro, dia após dia, do melhor modo que posso, ou consigo! Algumas cenas terão que ser cortadas numa crônica futura, certamente. Esse negócio de “livro aberto” é mesmo um clichê. Não sou livro e não estou aberto. Não dá para voltar para fazer remakes a vida. Não há recursos de edição. E a vida não perdoa. Mas, hoje sei que a vida não é filme e que não há ninguém na poltrona me assistindo. Porque, mesmo que haja sempre os fiscais da vida alheia, poucos realmente se importam.
Mas bem que a vida poderia ser filme, ou livro. Porque, às vezes, a vida é dura demais! Chata demais! Avarenta demais de momentos felizes. Vida demais! E a gente precisa de escapes. Porque quando a gente cansa de ser a gente mesmo a gente pode ser – ao menos por duas horas – Daniel Craig, 007, Sherlock Holmes, Pierce Brosnan, Home de ferro, Selton Melo, Edward Norton, Robert de Niro, Dustin Hoffman, Bruce Willis…
Porque, afinal, não é justamente para isso que a Literatura e o Cinema servem: para acalentar fantasia! Para o sonho!
“A arte imita a vida e a vida imita a arte. A vida é uma peça e cada um tem seu papel. Não é um pensamento original. Tenho certeza que você já ouviu isso antes.” (Madonna)
Acredito que todo mundo tenha sempre algo a nos acrescentar.
Acredito também que não devemos prescindir de aprender com as pessoas.
É por isso, por exemplo, que acalento o hábito de oferecer a qualquer palestrante, em qualquer reunião que venha a freqüentar, o total de quinze minutos para que me convença a ficar mais tempo, e se for mesmo bom, até o fim. Mas, aviso, são exatos quinze minutos. Porque, já que, geneticamente, as partes estão contidas no todo e o todo nas partes, com segurança, em quinze minutos já dá para avaliar se o cidadão lhe trará algo de interessante ou não. Preciso salientar que, se esse quarto de hora for recheado de lugares comuns, não haverá como esperar nem mais um segundo. Meu tempo é precioso. Preferirei preenchê-lo com coisas mais proveitosas, como assistir a algum jogo de futebol na tv, levar meus filhos para brincarem no pula-pula, ou simplesmente degustar um bom café na minha livraria predileta.
Eu não tolero clichês! Porém, como nesse grande mundo vasto mundo, nada é absoluto, há sempre outras considerações.
Pouca coisa exerce tal deslumbramento a nós homo sapiens quanto a novidade. Nós amamos surpresas, boas surpresas, é claro! A avant garde é um elemento atrativo em qualquer época e lugar, porque somos intrinsecamente fascinados pelo novo. A última moda, as inovações tecnológicas, as novas tendências filosóficas, as descobertas da psicologia, a new age (…) Tudo que é novo seduz porque apenas o que viceja cheira bem.
Nós, seres humanos, somos novistas inveterados.
- Somos? Realmente somos?
Contradizer continuamente a si mesmo é um dos maiores sintomas de pensar. Por isso, tenho abastecido minha maquininha de fabricar dúvidas com algumas “novas” questões.
Na verdade, tenho me perguntado se aquilo que veneramos não é, de fato, justamente o contrário: o clichê, o velho, o usado, o repetitivo.
Claro que precisamos esquecer, nessa análise, daqueles aparelhos revolucionários que, a cada semana, são despejados por discos voadores nos mercados do mundo inteiro e nos ater ao mundo das idéias, da cultura, do entretenimento e da arte.
No mundo das artes plásticas, por exemplo, quem quiser me taxar de ignorante que o faça sem reservas, mas depois de Picasso, Renoir, Van Gogh, Klimt, Munch e Modigliani quem, realmente, produziu algo de expressivo? Gustav Klimt morreu em 1918. De lá para cá, quais obras foram, de fato, relevantes e inovadoras?
No cinema, a coisa mais difícil do mundo hoje é um roteiro criativo como podemos ver em Matrix, Clube da luta, O sexto sentido e Quem quer ser milionário? Tanto que, o segmento dos roteiristas pode até fazer greves e mais, obter resultados com essas greves. Já se forem os bombeiros, ou os professores… Sei não.
Recursos que as indústrias cinematográficas e fonográficas se utilizam muito atualmente são remake’s ou remix’s ou sample’s. Por falta de boas criações novas, certamente. Mas também, porque adoramos ver, ou ouvir, de novo.
No teatro, a peça mais executada é ainda Hamlet. Um texto que tem ali pelos seus quatrocentos anos, mas que continua atraindo multidões. E no Brasil, o que ainda faz mais sucesso nos palcos do que Nelson Rodrigues?
A TV, por exemplo, recorre amiúde a referencias do passado, seja em releituras, seja para “se inspirar” para novas produções. Às vezes, no entanto, não é sempre fácil, para a maioria, identificar as origens dessas inspirações, apesar de algumas serem bem óbvias. Vejamos por exemplo as séries: Prison Break é claramente uma mistura de O conde de Monte Cristo com Macgyver. Shakespeare é outro que é sempre campeão de audiências. Amores proibidos, como em Romeu e Julieta; traições, como em Othelo; comédias, como Sonho de uma noite de verão; e até antagonistas como Ricardo III, o verdadeiro protótipo do malvado perfeito, fazem do bardo um real arroz de festa, onipresente em grande parte dos textos de muitas das obras atuais. E Sherlock Holmes? O obscuro médico escocês, Arthur Conan Doyle, nunca o imaginaria. Está vivinho da Silva em seriados resistentes como CSI, Criminal Minds, Monk, Medical Detectives, Law & Order SVU, Psych e até o festejadíssimo House (Holmes – House, sacou? E qual era o nome do amigo inseparável do detetive? Watson – que era médico! E do House? Wilson. Qual era o expertise do Sherlock? Descobrir o assassino através das evidências. E a do infectologista rabugento? Exatamente a mesma coisa, só que, no caso, os assassinos são as doenças).
E os realities shows? Quem pensa que esse privilégio dúbio é dos tempos atuais se esquece das grandes arenas do mundo antigo, dos gladiadores e dos martírios dos cristãos atirados às feras. Quero ver um BBB e um No limite que inspire tal adrenalina.
Depois de cogitar isso tudo é natural ficar matutando: há palavra mais atual do que resgate? Todo mundo fala de resgate. Mas quem ou o quê foi mesmo sequestrado? O que desapareceu? É a velha teoria do Lavoisier em plena atividade: “Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”. Não damos conta de que não há nada de novo sob o sol e que toda essa avalanche de resgates, de fato, nada mais é do que o velho repaginado.
Afinal, vale a pena ver de novo.
Só quem padeceu do mal sabe: ô troço para doer é chifre!
É um diabo de uma agonia tão desgraçada que não desejo nem para o meu pior inimigo! (Mentira! Para inimigos, se deseja toda agrura possível!)
Não obstante, o que seria da Literatura universal sem a traição?
Literatura é igual a jornalista, advogado, médico e agente funerário: sem a desgraça cairia em desuso.
Não por nada morte e traição são temas sempre revisitados. Eles são mais do que especiarias e temperos usados na culinária elaborada de alguns dos mais reverenciados textos, eles, na verdade, são as verdadeiras matérias primas.
Outra conclusão a qual cheguei é que corno não é só universal, corno é eterno! Porque, afinal, não é de hoje que traição dá ibope e, além disso, não são poucas as obras perfiladas em qualquer lista dos livros de referência mais representativos para a cultura mundial que se fundamentam na mais pura e ordinária perfídia. A conferir:
- Othelo – Shakespeare, que era apaixonado pelas mais diversas miudezas da humanidade, não poderia deixar de lado o tema da infidelidade. E a inocente da Desdêmona acabou se dando mal em virtude da língua ferina daqueles que invejavam o general mouro. Quem disse que fofoca não mata?
- Mandrágora – Esta peça de teatro escrita pelo célebre autor de “O príncipe” conta a história de um jovem (Colímaco) que deseja ardorosamente certa moça casada. Ele consegue alcançar o seu objetivo convencendo o nobre e inocente ancião que era o marido da recatada moça que ela poderia lhe gerar filhos caso ela fosse submetida a um tratamento com chá de mandrágora, que era considerada uma planta afrodisíaca. Adivinha quem deveria administrar o chá? Ele mesmo: Colímaco. Maquiavel realmente era muito maquiavélico (ai que infâmia!).
- Ana Karenina de Tolstói; Madame Bovary, de Flaubert; O primo Basílio, de Eça de Queirós; O amante de Lady Chaterlley, de D.H. Lawrence – são os chifres mais sofisticados da Literatura mundial e os cornos mais estudados pelas universidades de todo mundo. Cornos com P.H.D.
- Machado de Assis, por exemplo, tem muito da sua notoriedade graças ao adultério, ou apenas à sugestão do adultério. Dom Casmurro, Memórias póstumas de Brás Cubas e o delicioso e genial conto A cartomante são amostras do quanto o mais reverenciado escritor brasileiro era afeito a esse tema tão espinhoso.(Para não dizer pontiagudo!);
- Essa lista não poderia merecer o menor respeito caso não mencionasse o papa da infidelidade, o ícone da traição, o nosso querido e inimitável Nelson Rodrigues. Textos como Bonitinha, mas ordinária, Perdoa-me por me traires e A dama do lotação são exemplos de
como o autor trata esse tema com o carinho típico daqueles que amam o objeto tratado. “Porque em todo casal, há sempre um infiel. É preciso trair para não ser traído. “ Esse era o Nelson.
Li recentemente que mais uma daquelas pesquisas esdrúxulas afirma que os homens de QI mais alto são fiéis.
OK. Acato. Apesar de não conseguir vislumbrar claramente um critério confiável para se chegar a essa conclusão.
Mas, sei lá, de repente é verdade mesmo.
Só me dá pena.
Imaginem se diversos expoentes, por exemplo, da Literatura tivessem sido fiéis, como a produção deles teria sido ainda melhor.
Carlos Drummond de Andrade teve um longo caso só descoberto depois de morto. Shakespeare tinha um filho fora do casamento. Jean Paul Sartre tinha com Simone de Beauvoir uma relação “aberta”. Oscar Wilde traía Constance, a mãe dos seus dois filhos, com diversos rapazes. Imaginem se não tivessem sido adúlteros? Quanto desperdício de genialidade!
É! Não dá mesmo para se dicutir. Concordemos numa coisa: trair um ente querido é um dos degraus mais baixos que um ser humano pode chegar. Mas, feliz ou infelizmente, dá boa Literatura.
Mais uma prova disso é o livro do meu amigo Jeff peixoto, que conta a triste saga de um cidadão que se mete debaixo da sua cama por 96 dias após flagrar a traição da namorada. Por que ele faz isso? Acho que quem já passou por tal constrangimento deve adivinhar com propriedade os seus motivos.
Mas vou parando por aqui. Afinal, já que “a boca fala do que o coração está cheio” (ou a cabeça, no caso) vão acabar me acusando de ser expert no assunto.
(Ah, infâmia! Por que me persegue?)
Morri. Talvez já tenha nascido morto, pois, confesso: Nunca, jamais, persegui trio Elétrico algum!
Natal, ano-novo, carnaval: acabaram as “datas” de felicidade obrigatória. Ótimo! Agora posso ser feliz espontaneamente!
Às vezes, me flagro conjecturando por qual razão odeio tanto esses comportamentos de massa. Não estou muito seguro, mas é bem possível que ocorra porque odeio a sensação de ser dirigido. Nunca lidei muito bem com hierarquias nem com comandos coletivos (Não teria a menor vocação para as forças armadas nem para igrejas, a não ser que eu fosse logo aceito como general ou – no mínimo – como bispo.)
Embora deteste a sensação de ser comandado, sei que não há como escapar para sempre de ser manipulado, seja pela mídia, seja pelo governo, seja por mulheres (A mais sofisticada e subliminar das manipulações! Você é adestrado e mal sente!).
Mas o fato é que, quando observo certos exercícios de poder sobre a massa, me salta um impulso voraz de me rebelar e só a muito custo me controlo. Ninguém sabe, por exemplo, o quanto me esforço para não ficar dando pulinhos logo na hora em que todo mundo se ajoelha na igreja. E quando começam a cantar e balançar os braços erguidos? Logo me bate uma vontade louca de sair gritando! Nos shows, é também complicado: quando o vocalista dá o comando de “sai do chão!”, “Sai do chão!” e todo mundo fica pinotando feito um canguru. Em mim, particularmente, me bate um desejo insano de passar umas rasteiras. Desprezo o conceito de ser coreografado. Não nasci para conviver com a turba. A massa é sempre acéfala, voraz e instintiva.
Por sinal, não sei se detesto o carnaval por causa da turba ou se odeio a turba por causa do carnaval. Mas sei que odeio ambos.
Por isso estabeleci uma rotina neste carnaval a fim de que pudesse sair desses dias tendo me contaminado o mínimo possível pelo espírito galopante da euforia infinita. Afinal, só os distraídos são felizes.
Receita para não emburrecer no carnaval:
1º passo: nunca, repito, nunca ligue a TV;
2º passo: retome o 1o passo e faça-o sem hesitações.
3º passo: alugue filmes instigantes e, se possível, não tão comerciais assim. Cito alguns aos quais assisti recentemente: Modigliani, A vida de David Gayle, Amor nos tempos de cólera, As sombras de Goya, Encurralados… Todos com roteiros muito bem escritos e com uma bela produção.
4º passo: leia! Eu, por exemplo, concluí a leitura do novo livro do Luís Fernando Veríssimo, “Os espiões”. De narrativa leve e ilustrada pelo humor fino de um dos mestres da crônica brasileira. No entanto, pessoalmente, considero que está longe de ser uma obra-prima, justamente porque o autor parece não se levar muito à sério nessa empreitada. Então, fica tudo soando meio como uma grande canastrice. Tem lá umas tiradas inteligentes, mas, no todo, carece de certa profundidade para se tornar mais verossímil. Veríssimo mas não tanto verossímil.
Outros livros que terminei recentemente merecem nota:
- Criança 44, Tom Rob Smith. Livro emprestado pelo Bernardo, que me disse que eu iria gostar. Gostei. Devolvo mais não. É uma história baseada em fatos verídicos que narra a caçada a Andrei Chikatilo, um serial killer que estuprava, mata e canibalizava crianças na opressora Rússia de Stalin (um livro leve para ser lido, preferivelmente, depois do almoço);
- Roma, Steven Sailor, romance histórico que vai retratar a “Cidade Eterna” desde antes da sua fundação até os turbulentos dias que sucedem o assassinado de Júlio César no senado romano;
- Padre Cícero: Poder, Fé e Guerra no Sertão, Lira Neto, indico sem medo. O jornalista Lira Neto sabe como lidar com as palavras e, por
isso, sempre me serviu como uma referência positiva em como usar de termos regionais sem cair na vulgaridade. O elemento que salta mais aos olhos nessa impressionante biografia do emblemático líder religioso do sertão é que o autor não despreza o lado místico que está intrínseco à figura carísmatica do Padre Cícero. Aviso logo, é um livro volumoso, mas vale cada página;
- Europa invisível, Ivan Guimarães, o livro de estréia do meu amigo Ivan é um passeio poético pelos recantos mais charmosos do Velho Mundo. Com o seu sofisticado livro, o autor deseja abrir os olhos dos viajantes para uma Europa que só pode ser efetivamente vista e, por conseguinte, apreciada caso se eduque, se apure o olhar. Vale conferir.
Portanto, com os recursos necessários à mão, é possível se escapar do carnaval sem grandes perdas neurológicas.
E quem quiser pular o carnaval que pule. A diversão é um direito legítimo. Mas eu não tenho culpa de não ter acesso àquela alegria toda, nem sei como fabricá-la. Nem acho que o carnaval acabe na quarta-feira de cinzas no Brasil. Na verdade, a folia neste país sempre me parece cotidiana e vitalícia.
Mas quem quiser pular que pule.
Eu ainda prefiro saltar que pular.
Talvez seja por já estar ouvindo a percussão cadenciada dos passos da velhice se aproximando que tenho enveredado, ultimamente, por trilhas mais filosóficas.
Na verdade, há muito que admiro a Filosofia, mas, ao mesmo tempo, que cultivo um misto de medo e respeito. Filosofia sempre me pareceu tal como um cume nevado. Lindo, à distância. De perto, perigoso e vacilante.
O fato que me intriga é que nunca ouvi falar de um filósofo feliz.
Em todas as categorias há gente feliz: bombeiros, atletas, políticos, coveiros e até professores. Mas, filósofo…
Não que se aspire tanto, atualmente, a felicidade. A maioria das pessoas preferiria muito mais ser rica, bonita e famosa do que ser feliz.
A questão é que, a não ser que você tenha a sensibilidade de um freezer, não há como não se deixar abalar por tragédias como essa do Haiti e até se permitir a dilemas do gênero: “qual o sentido disso?”
Pois é, e aí, há algum sentido nisso?
Faz sentido para alguém tal hecatombe que matou mais de cem mil pessoas e trouxe sofrimento para milhões?
Alguém por aí já se prestou ao corrosivo exercício de se pôr no lugar de uma pessoa que morreu, às vezes, depois de longos dias, agonizando sob os escombros?
Isso faz sentido para alguém?
Apesar disso tudo, considero até valoroso que haja ainda gente romântica nesse mundo. Mas, na verdade, estou convicto de que vida não é um filme e se fosse a direção seria do Tim Burton!
Ando meio confuso ultimamente. Talvez porque esteja me afastando, perigosamente, cada vez mais da data do primeiro aniversário e da idade das certezas. (Afinal, jovem é que sabe de tudo!)
Empenhado em preencher as lacunas patrocinadas pelo tempo, fui logo trombar com Sartre (sim, aquele singelo que afirmou que O inferno são os outros). O homem é condenado a ser livre e, por isso, responsável por tudo que está a sua volta. Afirma o francês feioso. Portanto, são as escolhas feitas pelo homem que definem o seu destino e não qualquer determinismo metafísico.
Nietzsche, por sua vez, renega toda e qualquer possibilidade de interferência divina (O homem é único responsável por seus atos e escolhas).
Freud decreta que alguém que se detenha a se questionar sobre o sentido da vida deveria se submeter a diversas sessões de psicoterapia porque, certamente, padeceria de alguma patologia mental.
Já o médico e psiquiatra vienense Viktor Frankl, um judeu que sobreviveu a Auschwitz, alega que O homem, por força de sua dimensão espiritual, pode encontrar sentido em cada situação da vida e dar-lhe uma resposta adequada. Seu pensamento é sempre positivo e fundamentado na idéia de que a humanidade tem uma meta além de si própria que confere sentido a sua existência. No seu livro Em Busca de Sentido, ele afirma: Não procurem o sucesso. Quanto mais o procurarem e o transfomarem num alvo, mais vocês vão errar. Porque o sucesso, como a felicidade, não pode ser perseguido; ele deve acontecer, e só tem lugar como efeito colateral de uma dedicação pessoal a uma causa maior que a pessoa, ou como subproduto da rendição pessoal a outro ser.
E ainda, no mesmo Em Busca de Sentido: Quero que vocês escutem o que sua consciência diz que devem fazer e coloquem-no em prática da melhor maneira possível. E então voces verão que a longo prazo – estou dizendo a longo prazo! – o sucesso vai perseguí-los, precisamente porque vocês esqueceram de pensar nele.
Eis um belo argumento que nenhum desses autores medíocres de livros de auto-ajuda presivíseis jamais professarão, infelizmente. Acho lindo! Sério mesmo! Por sinal, já faz tempo que afirmo que uma das coisas que mais atrapalha a felicidade é esse atual fetiche por ela. Nada me parece mais autista e egoísta! Algo como o cão perseguindo o próprio rabo…
Não obstante à boa vontade de Frankl, não consigo me apaziguar. A questão ainda perdura: existe sentido?
Há algum roteiro? Existem conexões? Tem algum “fio” que engendre os fatos que nos sucedem? Se tem, quem tece esse labirinto? Há mesmo alguém aí fora ou estamos sozinhos universo? E se existe alguém assistindo a esse filme que protagonizamos, “ele” interfere ou só assiste passivamente? Interfere? Qual foi a interferência no tsunami na Ásia, nos desmoronamentos de Angra, nas epidemias que assolam os países miseráveis do 3º mundo? Ou será que nós, criaturas simiescas de inteligência rudimentar, não conseguimos interpretar direito os planos de tão sapiente entidade superior? Devemos desistir, então, de tentar compreender e apenas nos resignarmos à vontade de Deus? Ou é tudo apenas o somatório das nossas escolhas com as forças misteriosas do acaso?
São muitas interrogações ecoando sobre o silêncio ensurdecedor das cacofonias, das preces gritadas nos cultos, dos cantos alçados para o céu, dos mantras randômicos entoados nos templos.
E sobre todas elas a velha pergunta existencial:
- Há algum sentido, afinal?
Talvez exista. Talvez precise existir.Qualquer sentido que você empreste…
Realmente, o Stephen é o rei. Pena que não são muitos os jovens que, atualmente, conhecem a obra de Stephen King mesmo sendo o autor de livros que mais teve suas obras adaptadas para o cinema (O Iluminado, Um sonho de liberdade, À espera de um milagre, 1408)
Às vésperas do lançamento mundial da película que dá sequência ao “Crepúsculo”, não posso me eximir de – novamente – declarar que essa Stephie e os seus vampiros dietéticos, emos e cintilantes são ruins de doer.
- Por que, afinal, o tal do Edward não devora logo aquela chata da Bella e nos livra de uma vez desse dilema açucarado? (devora em todos os sentidos – não importando a ordem dos fatos!)
Tenho fé de que será o velho e alucinado King que vai sobreviver ao jugo do tempo e não os Drácula’s genéricos da vampiromantica Meyer, os quais, profetizo, mal sobreviverão ao crepúsculo, à lua nova ou ao amanhecer de uma nova coqueluche manipulada pelo mercado.
Mas, quem me vê falando assim, pode considerar que eu sou contra a “literatura” produzida pela Stephenie Meyer.
Quero declarar de uma vez por todas: EU NÃO SOU CONTRA A STEPHENIE MEYER (Por sinal, até adoraria casar com ela!)
Ela está no direito dela de desejar enriquecer. (Afinal, quem não deseja?)
- Na verdade, eu sou contra quem lê a Stephenie Meyer. (Ou contra esse pessoal que parece desejar mais sangue do que campanha do HEMOCE).
É triste de ver emudecido os órfãos de Tolkien e as fãs do Harry Potter (ou melhor dizer, as “ex”) indo se abrigar nas mãos pálidas e geladas do vampiro Edward-Pattinson. Que troca mais macabra!
Mas – o fato é que – mesmo sendo tão fraco quanto a programação de TV do domingo a desgraça daquele livro vende qual água no deserto. Só não me perguntem por quê?
Há quem defenda que é a nossa sede ancestral de sangue…
Sério! Isso tem fundamento!Veja os acidentes de carro. Na maioria das vezes, o engarrafamento é mais provocado pelos curiosos que, sequiosos de tragédia, se deslocam a passo de tartaruga (para não perder um detalhe da dor alheia). Veja só os programas policiais cuja transmissão migrou convenientemente da madrugada para a hora do almoço (assim todo mundo pode voltar para o trabalho satisfeito, de barriga cheia e com um bocado da miséria humana pingando da boca sorridente).
É muito regozijante saber que há alguém pior do que eu! Eis a mentalidade que permeia o nosso inconsciente coletivo. Eis a lama de exigüidades onde o ser humano costuma se refestelar de tanto chafurdar.
Há quem diga que a verdade não nasceu para ser dita.
Mesmo assim, vou aqui dizer uma: Sangue agrada! Sangue vende!
Há produto que a mídia goste mais do que tragédia ou calamidade?
Pois me resta torcer e trabalhar para que abandonemos esse sangue e nos voltemos para a carne. Sim, a carne repleta de proteínas de Saramago, Pessoa, Lins do Rego, Machado de Assis, Lispector, Rubem Braga, Guimarães Rosa, Oscar Wilde … Resta-me torcer e trabalhar para que releguemos para o passado as trevas do crepúsculo e que enalteçamos o alvorecer de novos valores! Abaixo luas novas! Viva a lua cheia de belas e nobres promessas! Abaixo o vampirismo sintético. Viva a sublime antropofagia!
E, por que não dizer, citando meu amigo Jeff Peixoto:
- E ninguém me canibalizou como deveria!
Seguindo a onda do twitter, decidi me arriscar – ao menos uma vez – em textos curtos, condensados. Não sei se funciono muito nesse estilo vídeo clip, mesmo sendo um admirador confesso de quem consegue escrever pouco e dizer tudo, contudo, sei lá, quem sabe meu lance é sempre de longa metragem… Eis alguns aforismos breves extraídos de alguns textos meus para serem ingeridos descompromissadamente. Apelidei-os de “pílulas reflexivas”, porém não estou muito seguro do princípio ativo delas, de repente são apenas placebos:
Era mais uma daquelas sufocantes tardes que Fortaleza é especialista em ter. (Bem que alguém poderia sugerir à “loira desposada pelo sol” para ela não exagerar tanto nessa intimidade com o astro-rei. Como gostaria que Fortaleza tivesse uns diazinhos de Oslo!)
Encontrava-me entretido no trabalho quando o toque do telefone me subtraiu a atenção. Era o meu amigo, blogueiro, escritor e futebolista insistente, Jeff Peixoto que fazia um convite inusitado: naquela mesma tarde, haveria um bate-papo televisivo sobre Carlos Drummond de Andrade, o qual, se tivesse tendências Niemeyeristas, estaria completando 107 anos nesse mês de outubro. A produção precisava urgentemente de algum desocupado que pudesse falar alguma coisa minimamente relevante.
Eu não sou lá o maior expert no assunto, mas como aparecer na TV é sempre legal – aceitei o desafio, depois, é claro, de ligar para a minha mãe para ela pôr no canal (porque ao menos a minha mãe haveria de gostar de me ver na telinha!).
Tinha, então, apenas umas duas horinhas para dar uma pincelada nuns livros e para consultar o oráculo dos tempos modernos – isto é, o Google – e me atualizar sobre a vida do poeta de Itabira.
Foi aí que me deparei com um poema cujo conteúdo é detentor do estranho poder de me conduzir ao passado. (Bem adequado, porque, afinal, tem sentimento mais Drummondiano do que nostalgia?!)
O fato suspirado debutara recentemente.
Eu e o Ivan estávamos em Minas abarrotados de feijão tropeiro, cerveja bock e 14 bis nas rodas das esquinas. Dias de juventude de mais e de dinheiro de menos. Dias bons, onde ainda vicejava a certeza de algumas coisas, a fé na humanidade e nas boas intenções das pessoas. Dias pretéritos.
Naquela oportunidade, um amigo em comum precisava escrever um discurso de formatura. Aceitamos contribuir com a lida e nos escarafunchamos na biblioteca pública. Depois de horas de poeira e espirros, pescamos um clássico do gauche Carlos e citando esse poema que ele concluiu triunfalmente o texto que produzimos naquelas longas madrugadas etílicas.
Mãos dadas
Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.
Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
a vida presente.
Ainda hoje essas palavras me assombram.
E me inspiram.
Ainda hoje – confesso, quase envergonhado – me vejo aspirando essa coisa fora de moda que é caminhar de mãos dadas com meus semelhantes.
Ainda hoje, resisto a sucumbir à venalidade essencial vigorante do “cada um por si mesmo e Deus por todos”.
Ainda hoje, me flagro crendo nos olhos nos olhos, no peito aberto, na palavra dada, no sorriso grátis, na gratidão professa (…). Nesses valores corroídos pela mediocridade coletiva.
E, assim, persisto nessa tolice visceral de seguir acreditando no pote de ouro no fim do arco-íris, no coelhinho da páscoa, na perna cabeluda, na loira do banheiro (essa existe! Lógico que existe! Um bocado de colega meu a viu nos corredores sombrios do velho Ginásio Anchieta!)
E me esquecendo de que há certas esperanças que só deveriam pertencer à mocidade. Espinhas e convicções são, de fato, estorvos da juventude.
Mas já que não dá para não se afastar, bem que eu poderia me satisfazer em apenas ser cantor de uma mulher e suspirar na janela (Há coisa mais enjoativa que suspiro?)
Bem que poderia distribuir entorpecentes. (Porque, afinal, se há um produto de enorme demanda atualmente é entorpecimento!)
Bem que eu deveria mesmo fugir para alguma ilha recôndita. (Não é o que todo mundo faz o tempo todo?)
Quem quer a vida presente? Quem quer o tempo presente?
Eu não tenho saudade de nada. Salvo de mim.
Esse negócio de morrer é um troço meio complicado, não concorda?
No entanto, particularmente, acho a morte útil.
Vou tentar me explicar para que você não me conceitue como um suicida em potencial.
Não sou qualquer entusiasta mórbido empolgado com a vida além-túmulo, não se preocupe!
Por sinal, sou contra a eternidade. Nada eterno me parece confiável!
Meus amigos sabem que morro de medo de morrer e ir para o céu. Eu iria ficar completamente desambientado por lá acompanhado pela Madre Tereza, ou Gandhi, ou mesmo Martin Luther King. Eu iria conversar sobre o quê? Não. Se tiver que ir para algum canto depois do meu último suspiro quero ir para onde vão as pessoas de que gosto.
Mas voltando ao argumento: O advento da morte não é proveitoso só para diminuir a superpopulação mundial, ou para subtrair alguns elementos que só apareceram sob a face da Terra para atrapalhar a vida dos demais (traduzindo: políticos e burocratas!).
A morte também é extremamente favorável à Literatura.
O que seria de Shakespeare sem a morte? Hamlet e Othelo sem o aparte da morte seriam mais sem graça que sopa de chuchu.
E o que faria Nelson Rodrigues sem a morte? E Machado? O que ele faria com memórias póstumas? Ou com Quincas Berro d’água?
E qual graça teria “Por quem dobram os sinos” do viril Hemingway não fosse aquele heróico desfecho? (Pensando bem, acho que não vale citar o Ernest nem o Pedro Nava nem Virgínia Woolf – estes eram mais do que suspeitos ao tratar da morte, afinal, todos acabaram por se atirarem nos seus braços voluntariamente.)
Claro que concordo que é esse determinante chato de ser “para sempre” que torna a morte radical demais. (Morte, sogra, tatuagem… nada “para sempre” é, de fato, proveitoso!)
Porém, ainda considero pior se fosse uma coisa como o “cartão azul” do futsal.
- Saia, dê um tempo lá no banco e volte para a quadra.
Isso afetaria o núcleo dramático da obra. Não. Melhor assim!
Morramos, então! Ave, César! Aqueles que vão morrer lhe saúdam!
Porque a morte é, de fato, a coisa mais democrática que existe. Ninguém escapa!
Porque, talvez, se vivêssemos para sempre não valorizaríamos a vida.
Porque cedo ou tarde chegará a nossa vez.
(Cruz credo, que papo mais funesto…)
“Não é que eu tenha medo de morrer. É que eu não quero estar lá quando isso acontecer!” (Woody Allen)
Historinha sobre a morte:
Ele era velho.
Para dizer a verdade, havia já trinta anos que era de “velho” que era chamado por todo mundo.
E ele era velho e sabia disso!
Deitado na rede há mais de meio ano mal abria os olhos. A vida toda com saúde debilitada. Todos – sem exceção – esperavam que, mais dia menos dia, teriam que comparecer ao seu funeral portando um discurso previamente preparado: “Morreu como um passarinho, o coitado!”.
Testamento lavrado, terno pendurado e terreno escolhido no discreto cemitério. Escolhera um resguardado por uma sombra frugal. Afinal, sonho de todo morto é ser pranteado. A sombra ajudaria a trazer as eventuais lágrimas e comiserações.
Um dia, ele acordou com uma idéia pululando na sua cabeça e quis mudar tudo!
Decidiu adiar esse negócio de morrer e quis conhecer o mundo.
Despediu a família que parasitava seu teto e a sua pensão. Vendeu a casa. Juntou as economias. Mandou pastar todo mundo que aguardava para dividir seu espólio e saiu pela porta com mochila nas costas. Isso foi há oito anos. Diz-se que está ainda vivo e bem. Ano passado, expediu para o bisneto uma foto sua, esquálido como sempre, mas bronzeado. Estava num cruzeiro para Noronha ao lado de uma coroa vistosa.
E assinou: o velho.
NADA PIOR DO QUE A VERGONHA
NADA MAIS RASTEIRO E VIL
A PONTO DE CONVIVER COM A INVEJA
NÃO DIGO ALTO
MAS DIGO
TENHO INVEJA!
A INVEJA DO TALENTO
TALENTO É A PROVA CABAL
É O TESTEMUNHO INEXORÁVEL DE QUE
DEUS GOSTA MAIS DE UNS DO QUE DE OUTROS
PORQUE SE TIVESSE TALENTO
TE LOUVARIA MIL VEZES DE MIL MANEIRAS
SE FOSSE MOZART
TE COMPORIA A MAIS TOCANTE SONATA
TRANSFORMARIA O DOCE DA SUA VOZ EM SUAVES NOTAS MUSICAIS
QUE SE DILUIRIAM AO VENTO COMO SE POR CONTA PRÓPRIA
E A HARMONIA ENVOLVERIA O MUNDO
SE FOSSE LEONARDO
TE PINTARIA UMA OBRA-PRIMA
E ETERNIZARIA SEU ROSTO EM LUZ E CORES
CORES DE MATIZES TAIS QUE NINGUÉM NUNCA VIU
E A COR GANHARIA O MUNDO
AH SE FOSSE JOBIM!
SEU NOME SERIA RIMADO EM TANTOS VERSOS TÃO SUBLIMES E TRADUZIDOS EM LÍNGUAS E DIALETOS DOS LUGARES MAIS LONGÍNQUOS TALVEZ ATÉ NO NEPAL
E CANTADO POR TANTAS BOCAS TANTAS BOCAS
BOCAS QUE SORRIRIAM AO CANTAROLAR TEU NOME
SE FOSSE JOBIM
A MÚSICA INVADIRIA O MUNDO
E SE FOSSE MICHELÂNGELO
SE TIVESSE AS MÃOS DE MICHELÂNGELO
EU SOPRARIA SEU HÁLITO NO MÁRMORE
E A PEDRA GANHARIA GRAÇA GANHARIA CURVAS GANHARIA DONS
DIGNIFICARIA O MÁRMORE COM SUA SILHUETA
E O BELO SE DERRAMARIA SOBRE O MUNDO
SE FOSSE PESSOA
AH SE EU FOSSE PESSOA…
VOCÊ VIRARIA POEMA
O POEMA MAIS BELO ENTRE OS POEMAS JÁ PROFERIDOS POR BOCAS HUMANAS
ATÉ HOMERO TERIA CIÚMES DO MEU POEMA
PORQUE EU TE ESCREVERIA ALGO TÃO BONITO – TÃO BONITO QUANTO UM PASSARINHO
FICARIA TUDO TÃO BONITO
SE FOSSE PESSOA
E A POESIA INSPIRARIA O MUNDO
SE TIVESSE TALENTO
MAS COMO NÃO SOU NADA – NEM SEREI
NEM TENHO NADA – NEM TEREI
ME RESTA UM SUSSURRO ROUCO
UM ARREMEDO TÁCITO
UM SOPRO TÍSICO
ME RESTA APENAS UMA INVEJA
BÁRBARA
REM no MP4. Estou me sentindo um tanto miserável nessa manhã enevoada. Faz frio. E um fog londrino se abate imperscrutável sobre as colinas e encostas à margem da Dutra, inundando tudo até onde a vista alcança. Que é quase nada. Já disse. Estou me sentindo meio miserável nessa manhã úmida. Como se a infelicidade fosse uma ave de mau agouro que se ressentisse de levantar vôo do meu ombro. Às vezes acontece, não sei se a todo mundo, ou só a mim, de despertar com essa sensação de alma enxaguada e espichada para secar. (Droga de sensaçãozinha mais emo).
O Rio ficou para trás, e com ele Machado, Vinicius, Barreto e Bilac. Ora direis ouvir estrelas. Ora, direi escutar mais do que desejaria, e até o lamento do passado plangente resistindo a se tornar cada vez mais gravemente (apenas) passado.
Deixei o mar e o Rio, compreendendo o motivo dessa cidade abrigar e inspirar tantos artistas. Há cidades que têm estradas, casas, cachorros zanzando pelas praças, pessoas, ladrões e instituições se esmerando em subtrair dinheiro dessas pessoas, e há cidades que têm tudo isso, mais algumas coisas, e, ainda, têm voz. Se você souber ouvir a voz da cidade, ela ecoará por todo o seu ser e escorrerá pelas ruas. Da cidade, das cidades e, se você não a trair, ela ganhará o mundo todo. Alguns nascem e desenvolvem esse doce dom de traduzir os sentimentos pulsantes que são evocados das entranhas dos ajuntamentos humanos (e urbanos) em palavras grafadas.
É quase triste admitir, mas há privilegiados!
Bem aventurado é aquele que escuta a palavra, e mais ainda quem a lê.
O Rio tem palavra e voz. É uma cidade que grita alto as suas artes.
Pena que, às vezes, a sua voz fique meio turvada pelos estampidos patrocinados por um estado paralelo de errados em detrimento de um Estado de Direito. Mas que o Rio tem voz tem. Não há como negar.
Lembrar-me dos desmandos e da maldade humana não está ajudando em nada para diminuir a minha melancolia matinal. Para dizer a verdade, hoje nem Vinicius me faria sorrir sem amargura. Não estou apaixonado. E – como sabemos – só apaixonados são felizes. Só apaixonados vivem o doce abandono dos alienados. Só apaixonados se deleitam na cegueira afortunada dos obcecados.
Enxergar demais desafortuna. E não há mesmo limite para o ceticismo. Tudo debaixo do sol e acima dele tem o terrível potencial de ser desacreditado.
Detesto apelar para clichês, mas vou me fazer valer de um. Estou muito triste para ser criativo. Mas, o fato é que realmente nada é eterno. Só as palavras. Têm horas que apenas elas parecem perdurar e lhe fazer companhia.
As pessoas não. Essas têm que obedecer aos apelos históricos-viscerais do seu nomadismo essencial. Sempre me parece que elas chegam, vasculham tudo, extraem tudo de você e partem. Pouquíssimos resistem ao crivo do mais rígido dos juízes: o tempo.
Por sinal, odeio a expressão “ficar” tão enxovalhada pelas bocas adolescentes. Por que dizem que fulano “ficou” com sicrana (ou mesmo sicrano!) se na verdade ele se foi na primeira oportunidade? Ficaram? Na realidade, eles apenas estiveram. Ficar é permanecer! Ainda denominam esses seres passantes de ficantes. Problema de semântica. Equívoco de nomenclatura. Quem de fato fica é aquele que fica com você e não abre. Ou não?
Isso ainda existe nesse mundo de coisas e relações descartáveis?
Ai.! Estou mesmo envelhecendo… Cadê meu pijama?
Só as palavras continuam, e os sentimentos que elas carregam consigo.
Pois afinal, o Verbo vagava no meio do Cosmos e existia muito antes de tudo existir. Até antes do tempo existir. E desconfio de que, ao lado dele, o advérbio, o pronome, o substantivo e todas as demais classes de vocábulos. A palavra estará sempre ali, tão perto, à mão, para lhe acudir. Palavras não desamparam, não traem, nem mentem. Bocas sim. Fazem tudo isso e muito mais.
Mas, não dêem ouvido (ou olhos, ou mais nada!) a esse cara que é suspeito ao declarar tudo isto porque ele está se sentindo velho e miserável nesta manhã insípida e branca. Continuem, portanto, acreditando, ficando e vivendo da forma que melhor lhe aprouver.
Quanto a mim, não há razão para preocupação. Enquanto ecoarem sobre a Terra as palavras de Machado, Barreto, Vinicius e Bilac não dá para se sentir miserável para sempre.
“No fundo, talvez não seja muito bom negócio vender a alma. A alma, às vezes, faz falta.” (RUBEM BRAGA)
Uma vez comentei num inóspito bar com amigos sobre uma crônica cujo
conteúdo tinha me impressionado tanto que a tinha utilizado como “argumento” para iniciar um namoro. (No tempo em que o RPM fazia sucesso, não era incomum que rapazes pendurassem pochetes na cintura, portassem calças justíssimas e pedissem em namoro as pretendentes! Tudo muito esquisito! Hoje em dia, na pragmática era do fast food, as pessoas não perdem tempo com conversas gratuitas. Elas ficam, ficam mais um pouquinho, depois casam e se separam sem quase trocar duas palavras.)
Mas… Voltando a crônica:
- Era uma vez um passarinho…
Não era um passarinho qualquer porque, em vez de viver simplesmente passarinhando por aí como faz a maioria dos passarinhos, esse protagonizava uma crônica do Rubem Braga. Como se sabe, há poucos bichos de apelo tão artístico quanto passarinho. Quem não se lembra, por exemplo, do sabiá do Tom Jobim, do bem-te-vi do Paulinho Pedra Azul e do rouxinol do Oscar Wilde?
A singela história versava sobre um passarinho que se recusava a cantar. O dono havia feito de tudo: trocara a alimentação, colocara outro passarinho – esse cantante – na gaiola, e até pusera um rádio ligado ao seu lado. Por fim, levara ao veterinário, o qual decretou que o bicho não cantava por causa de algo parecido com uma depressão pós-trauma. Como não há psicólogo de pássaro (ao menos acho que não há) o bicho seguia desenxabido no seu canto da gaiola sem que nada lhe convencesse a fazer a sua estréia sonora.
Até que um dia, o dono, despretensiosamente, deu-se a assoviar uma melodia. O resultado não poderia ter sido mais surpreendente: não é que tal música clicou um start no tal passarinho que, imediatamente, abandonou a sua mudez contumaz e pôs-se a cantar linda e ininterruptamente?
A moral da história é simples de se constatar: há coisas especiais!
Afinal, o que tinha de peculiar naquela bendita música que as outras não tinham?
Para a potencial namorada – embevecida – uma pergunta semelhante foi oferecida numa bandeja de prata: o que detinha de particular aquela garota que logrou tocar onde outras sequer tinham se aproximado? ( Como diria o Nelson: batata! Funcionou! Valeu pela força, velho Rubem!)
Se existe uma coisa que admiro num bom autor é a capacidade de tratar do cotidiano e de coisas comuns sem perder a profundidade e a complexidade. Tudo que é realmente bom é complexo. Só simplórios gostam de coisas simples. A vida não é simples, como as pessoas também não são. Tal como um vinho magnífico desperta os mais diferentes sabores no paladar ; tal como um prato excelente encerra temperos e texturas variados, um texto excelente é aquele que sugere os mais diversos sentimentos no leitor. Tudo que tem qualidade possui alma. E a alma é vasta, indecifrável e complexa.
E alma faz falta sim, caro Rubem!
Sei disso porque vejo muita gente e coisa sem alma por aí.
Não que ande à cata de almas mundo afora. Nunca vi nada sobrenatural na vida, nem visagem, nem OVNI, nem profecia… Nada. E não quero começar hoje. Nem amanhã.
Estou falando da anima, aquela força interior que nos move, que nos motiva e nos dá sentido.
É justamente dessa anima que as palavras de Rubem estão permeadas.
Por sinal, não só as dele, mas de diversos outros maravilhosos cronistas.
- Quem (com mais de 25 anos) não se lembra dos famosos livretos da coleção “Para gostar de ler”? (A primeira edição tinha um pinto na capa, não era?) Tinham que reeditar esse negócio, gente! Como vamos fazer o povo gostar de ler sem o “Para gostar de ler”? Como fazer para que a nova geração leia os soberbos Drummond, Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, Stanislaw Ponte Preta e Fernando Sabino.
Na época que “Olhar 43″ fazia sucesso nas rádios, um dos meus amigos queria ser o Zico; outro queria ser o Ayrton Senna; outro queria ser o Paulo Ricardo (…) Principalmente, depois que li “O encontro marcado” eu queria ser o Fernando Sabino.
P.s.: Eu também queria ser uma fusão meio improvável do Roberto Dinamite com o Ralph Macchio, o Daniel san do Karatê Kid. (Ai! Agora os psiquiatras amadores de plantão vão mesmo me diagnosticar de esquizofrênico!)
Por sorte, ainda temos hoje excelentes cronistas, como Luís Fernando Veríssimo, Martha Medeiros, Xico Sá e Arnaldo Jabor, mas não sei se algum destes tem o bônus de ter servido de tema para tantos inícios de namoro quanto o Rubem. Afinal, eram meus amigos, mas eram também um bando de plagiadores…
“Livros não mudam o mundo, o que muda o mundo são as pessoas. Os livros só mudam as pessoas. ”
(Mario Quintana)
O Mario tem razão.
Por sinal, o Mario era tão brilhante que, mesmo detentor de uma poética incontestável, nunca pôs os pés na Academia Brasileira de Letras (por sorte, o mesmo não ocorreu com outros igualmente qualificados, tais como José Sarney, Marco Maciel e Paulo Coelho. Felizmente, no caso destes, a justiça foi feita e eles estão por lá tomando o chazinho da tarde com biscoitos finos.)
Como disse Wilde: “Cada idéia boa que tenho me cria um inimigo. Para ser popular é preciso ser uma mediocridade!”
Nesse mundo sem razão, Mario e Wilde a tinham de sobra. Vai ver que é por isso que falta tanta à maioria Alguns têm razão demais.
Mas, o fato é que realmente livros podem modificar as pessoas.
- Podem?
A Literatura, como uma Arte, é um espelho, e, por isso, reflete comportamentos e pensamentos. Reflexões podem alterar o curso de vida das pessoas. Pensar é sempre algo revolucionário e atípico. A grande maioria apenas rumina com a cabeça e imita padrões que elas nem sabem por que existem. A superficialidade é tão cabal que sequer elaboram idéias próprias e, quase nunca, novas. Não são pensamentos, São arroubos cerebrais. (achei grosseiro dizer arrotos!).
Mas, o que é Arte? O que é Literatura?
Para mim, essa uma daquelas discussões eternas. O pior é que, nesses casos, não dá para utilizar o tira-teima e, cedo ou tarde, alguém acaba apelando para o velho chavão que, de tão usado, já está enxovalhado: É relativo! Pois é: tudo é relativo. Até dizer que tudo é relativo é relativo porque se absolutiza algo ao dizê-lo. Por isso acho muito relativo dizer que algo é relativo. Absolutamente relativo.
Conceituar Arte e Literatura é uma lida difícil.
Mas, ao mesmo tempo, não vejo que identificar Arte e Literatura seja uma tarefa tão improvável assim. A meu ver, quando na obra há uma forte prevalência de qualquer coisa, de fato, eterna, inspiradora, luminosa e inovadora não há como hesitar muito. Conselho de amigo: se a relação com a obra lhe promoveu, se lhe fez melhor do que antes, tem tudo para ser Arte. Consuma sem moderações. Farte-se sem pudores. Comedimento nunca levou ninguém a lugar algum. Só exagerados fizeram História.
Eu quero falar de alguns livros que me modificaram.
Houve livros assim. Por sinal, livros me alteraram mais do que pessoas.
Certamente, porque sou melhor em ler livros do que pessoas.
Por sinal, sempre acho que o ser humano oscila em duas frentes antagônicas: ou é previsível demais, por isso tedioso; ou é francamente inusitado, portanto escandaloso. No fim, ilegível. Ou porque é chato demais ou performático demais. Quem quer ler algo assim?
Pois nos esqueçamos dos seres humanos! Não sou mesmo bom em reconhecê-los e, indubitavelmente, não sei lidar com eles. Por isso não confio muito nessas profissões repletas de tantas variáveis. Não confio em economista, em meteorologista nem em psicólogo. Afinal, todos trabalham com objetos sobre os quais eles não têm o menor controle. Prefiro trapezistas, domadores de leão e adestradores de baleias. Esses sim têm controle do que fazem. Esses sim têm segurança no que dizem.
Não falarei de pessoas. Ainda bem. (Odeio fofoca!)
Falarei de livros que mudam pessoas.
Livros que me modificaram. Nem sei se foi para melhor ou para pior. Sei apenas que quando virei a última página já não era o mesmo que tinha contemplado a capa. .Vou abandonar um pouco os arrasa-quarteirões da atualidade. Quero o cheiro do mofo. Quero o sebo. Quero a traça.
Para quê? Por quê?
Ah, sei lá. Porque, quem sabe, alguém se empolga e folheia algum deles. Quem sabe, até os leia.
Porque é bom visitar velhos amigos.
Porque é bom ouvir aquela música antiga.
Porque é bom falar do que se gosta.
Novamente, alguém se condoeu em virtude de algo que afirmei nesse espaço ( já não tanto harmonioso e pacífico como antes!). Por isso, venho novamente a público para explicar meus argumentos a fim de esclarecer melhor meu ponto de vista.
- Max, no seu texto intitulado “Eu crepúsculo, Tu crepúsculas…” você não teria transparecido uma atitude pouco respeitosa em relação aos adeptos do espiritismo?
Resposta: De jeito algum. Em absoluto. Negativo. Em suma: Nananinanão! Eu critiquei os livros escritos por almas workaholic’s e não a doutrina de Alan Kardec. E avalio aquele tipo de produção segundo um parâmetro bem definido: aquilo não é Literatura. Entretanto, quem quiser gostar que goste. Quem quiser ler que leia. Como sempre digo: ler qualquer coisa ainda é melhor do que não ler!
Já fiz alguns questionamentos a amigos meus que abraçam crenças de vidas postmortem para ver se eu conseguia antever alguma lógica nos seus dogmas, mas devo dizer que, continuo tão insatisfeito quanto antes no que se refere aos seus posicionamentos sobre o mundo transcendente – editorial. Vejam só se não tenho razão de manter minhas interrogações.
- Por que apenas autores desconhecidos continuam “escrevendo” depois da morte? Por que Drummond, Bandeira, Vinicius, Proust, Verne, Clarice Lispector, Rachel de Queiroz, Wilde, Shakespeare e outros gênios da Literatura mundial não nos brindam mais com as suas obras magníficas? Ficaram preguiçosos depois de mortos? Talvez porque ninguém teria coragem de afirmar que aquele texto era mesmo do bardo inglês ou da genial Rachel, a primeira mulher a integrar a Academia Brasileira de Letras, enquanto, certamente, a um anônimo pode ser atribuído qualquer escrito. Complicado isso!
Alguém poderia argumentar (meio forçadamente!) que esses autores consagrados não sentiriam mais necessidade de escrever lá do além já que, em vida, o fizeram com tal presteza. Contudo, tenho alguma desconfiança de que, caso seja realmente possível ditar para alguém uma obra sua, muitos não iriam perder essa oportunidade. Quem de fato acredita que depois de passar a vida toda falando sobre a morte, Nelson Rodrigues iria perder a chance de descrever como havia sido passar por essa experiência? Duvido! E Fernando Pessoa iria perder a possibilidade de tratar poeticamente da morte de todos os seus heterônimos (e até da dele mesmo!)? Duvido!
Será que o “trauma” da morte foi agudo e exigente demais para os consagrados a ponto de travá-los enquanto para os desconhecidos ela serviu de inspiração?
Nesse caso, a morte pode ser útil à maioria das pessoas. Que bom! Não vão faltar boas obras para lermos…
Só torço para que Hemingway termine “O jardim do Éden” e para que Beethoven conclua a “Sinfonia inacabada”.
Só preciso lembrar que esse blog se chama “Sem papas” (na língua – decerto!) e não “Com luvas de pelica” (nos dedos). Portanto, ele se propõe a isso mesmo: apontar o que vale a pena ou não ser lido segundo um critério bem claro e definido: o meu próprio crivo, é óbvio!
Mas acho positivas demais as críticas às minhas críticas. Serão sempre bem recebidas porque é o debate que importa.
Estou até esperando que o pessoal que é fã dos livros de auto-ajuda se pronuncie. E vou até fornecer munição contra mim:
- Entre os livros de auto-ajuda e os ditados por espíritos, ainda fico com os defuntos escritores. Esses ao menos chegaram a algum lugar e não repetem tantos clichês. Porque, devo dizer, quem precisa de livro de auto-ajuda precisa mesmo de ajuda.
Não desprezemos o valor do ódio e da inveja.
Não são tantas assim as obras notáveis que foram produzidas por inspirações elevadas. Engana-se quem pensa que é apenas através da dedicação, da devoção, do amor… desses sentimentos “nobres” que o homem se motivou e ainda se motiva a criar coisas belas. Nada como a necessidade de pagar o aluguel ou sustentar uma amante exigente ou superar um desafeto para lhe estimular a sua veia artística.
Há um sociólogo italiano chamado Domenico de Masi que é autor de dois livros muitos festejados nesses últimos anos: A emoção é a regra e O ócio criativo. Neste último best seller, ele traz a luz um fato muito real e instigante: que é a existência de um gênio que provoca o surgimento de outro.
Não desprezemos o valor do ódio e da inveja!
Se da Vinci não tivesse existido Michelangelo teria sido quem foi?
Se Modigliani não houvesse desafiado Picasso, o catalão orgulhoso teria alcançado tal glória?
No período do auge da Bossa Nova, ali em Copacabana todos se amavam em profunda harmonia tal um barquinho à beira-mar?
Nada como uma boa competição e alguns conflitos acirrados para servir como um incentivo necessário para uma produção cultural efetiva!
Não obstante, há relatos que igualmente comprovam que a amizade também não é um elemento refratário à genialidade, vejamos, por exemplo, Simon e Garfunkel, Lennon e McCartney, Romário e Bebeto, Vítor e Léo (ai! Essa doeu!) e Wilde e Conan Doyle. (como é?)
Isso mesmo. Pelo autor de Oscar Wilde e assassinatos à luz de velas, Gyles Brandreth, Wilde e Doyle teriam não só se conhecido na Londres vitoriana quanto, até mesmo, convivido com certa freqüência.
Oscar Wilde e assassinatos à luz de velas é um livro divertido e sem grandes pretensões do tipo que agrada a todo o tipo de leitor. Gyles explora os diversos naipes da Inglaterra do fin du siècle, desde o submundo dos garotos de programa até os círculos mais privilegiados dos clubes aristocráticos, ambos igualmente freqüentados pelo notório autor irlandês.
No livro, encontramos o elegante e refinado autor de “Retrato de Dorian Gray” de comportamento extremamente complexo: bom pai, marido carinhoso, amigo dedicado e homem de vasta cultura. Suas tendências homossexuais, as quais acabaram por determinar a sua tragédia, são retratadas com uma pincelada de discrição. O foco nesse livro é a caçada de um assassino de um jovem michê por um Wilde claramente Sherlockiano. Improvável, mas delicioso.
Mais delicioso ainda é o doce hábito do autor de brindar o afortunado leitor com alguns dos mais diversos aforismos que alardearam aos quatro ventos a fama de Oscar Wilde:
- Ah! Não me diga que concorda comigo. Quando as pessoas concordam comigo tenho sempre a impressão de que estou errado.
- As mulheres existem para que as amemos e não para que as compreendamos.
- Posso resistir a tudo menos a uma tentação.
- A única diferença entre uma paixão eterna e um capricho é que o capricho dura um pouco mais.
Nesse livro “policial” talvez o que menos importe é descobrir quem é o assassino. Investigue o investigador. Descubra o homem por trás do mito. Afinal, não há muita gente que possa afirmar (sem exagerar) ao ser interrogado numa alfândega: “Não tenho nada a declarar a não ser a minha genialidade”.
Só tem um jeito de não ser polêmico e é o de ficar calado.
E olha lá, porque, há quem afirme que “quem cala consente!”. Eu, particularmente, acho que quem cala, cala e pronto!
Mas, estou comentando esse ponto apenas porque algumas das minhas considerações nesse espaço cibernético me retornaram em forma de críticas e apoios. Não esperava nada diferente, e, por isso, me disponho a encarar o debate com o peito (relativamente) aberto e só me esquivando quando supor necessário para a manutenção da minha tão querida salubridade.
Portanto, de vez em quando, vou reproduzir aqui algumas das ponderações que recebi e as respectivas réplicas. Não haverá tréplicas porque acho que tudo demais é veneno. Até democracia.
- Sr. Max, no seu último post no seu blog você teria afirmado que as mulheres são interesseiras?
R.: Sim. Afirmei.
Também afirmo que não só as mulheres. Homens também são. As demais categorias variantes também podem ser encaradas como tal. Todo mundo, de fato, é interesseiro. Todo mundo se relaciona com todo mundo determinado por algum interesse. Nada é gratuito! A questão é que nem sempre esse interesse advém de motivações pecuniárias ou de expectativas de ganhos materiais. Os estímulos que provocam que alguém tenha interesse de interagir com outra pessoa são os mais plurais possíveis (até os improváveis!)
Um amigo me contou uma história deliciosa inspirada no meu último texto: ele havia providenciado uma fantasia engenhosa para o seu carnaval. Ele foi para o agito vestido de pescador, com vara e tudo. Logicamente, ele aspirava que a sua “pesca” fosse formada de “peixas” das mais diversas medidas e espécies. O problema era a isca! No primeiro dia, ele inventou de colocar (veja se poderia funcionar): um livro! Claro que nenhuma presa foi fisgada pelo frustrado rapaz. No segundo dia de carnaval, ele decidiu apelar para o romantismo e para a sensibilidade. Ele pôs uma linda rosa vermelha. Bingo. Uma peixinha coberta de poucas escamas se sentiu cativada pelo pescador esforçado. Mas ele ainda estava decepcionado. Achava que a sua vara tinha um potencial maior de produtividade. Alguém lhe sugeriu não pôr coisa alguma no terceiro dia já que, como dizia Exupéry, o essencial é
invisível para os olhos! Mas ele não estava convencido que essa seria a melhor tática. Enfim, alguém lhe forneceu a idéia que precisava: um cartão de crédito. (claro! Por que não havia pensado nisso antes?!) O resultado foi impressionante. Não havia mais espaço no seu cesto hora alguma para tanto peixe desejando ser pescado.
Uma vez, perguntei para um conceituado professor de História qual era a sua impressão sobre livros encaixados na categoria “Romances históricos”. Estava preparado para o pior, obviamente. Esperei um longo discurso purista cheio de citações de Eric Hobsbaw. Esperei que ele manifestasse todo o desprezo que a Academia nutre por essas obras que, popularmente, não são conhecidas pelo imenso compromisso com a “verdade histórica”. Esperei até que ele me expulsasse da sala a pontapés por ousar entrar nesta seara tão tranqüila quanto um vespeiro.
Para o meu espanto, a resposta do emérito professor foi bem diferente daquela que eu esperava. “Morro de inveja!” Foi que ele disse.
Fiquei depois matutando sobre essa afirmativa.
Essa história de “verdade histórica” é uma coisa complicada por mil razões. Há uma vívida discussão se a verdade dos livros de história foi, de fato, aquilo que ocorreu. Não são sempre os vencedores que narram as suas vitórias, repletas de façanhas de coragem e audácia? Não se costuma ver, a toda hora, governos confessando atitudes vis e genocídios básicos. Portanto, se os livros de história estão repletos de interpretações parciais e enfoques comprometidos, por que os “romances históricos” teriam que se pautar sobre uma “verdade absoluta!”? (se é que existe essa quimera!).
Só encontrei um jeito aplacar as minhas angústias e foi o de consultar o máximo possível de autores sobre um determinado ponto. Para descobrir a verdade? Claro que não. Para cruzar as suas opiniões e enxergar o quadro da melhor forma possível.
Mas, e a verdade? “A verdade está na fé!” Foi outra coisa que esse professor me ensinou.
Será a verdade aquilo que dirão, por exemplo, os cronistas dos séculos vindouros sobre a nossa atualidade Aquilo que detectamos dos tempos atuais é a verdade ou estamos próximos demais para avaliarmos com propriedade? Qual é a verdade?
- Questão muita mais filosófica que histórica, talvez.
Esse preâmbulo serve para introduzir todo e qualquer debate sobre uma obra “histórica”. Até que ponto aquilo que narra o autor é uma verdade histórica ou só licença poética? Por isso que há quem denomine esse gênero de “ficção histórica”. Mas peraí: é ficção ou é história? Ou a história é mais uma faceta da ficção?

O Lobo das Planícies de Conn Iggulden
Quero tomar como base a obra de um autor que hoje está sendo muito festejado por leitores de todo o mundo. O nome dele é Conn Iggulden. Professor de inglês que largou o magistério pra se dedicar à literatura e escreveu quatro volumes contando a vida de Júlio César (série: O imperador). Seu último projeto está centrado noutro grande guerreiro, Gengis Khan. Muitas vezes me pego me questionando sobre a veracidade dos fatos que ele aponta como verdadeiros na trajetória desses célebres conquistadores, mas, em todas as vezes que isso ocorre, me interrogo intimamente: é atrás da “Verdade” que eu estou? A verdade de quem? Na verdade, é melhor pensar que estou em busca da verdade de um olhar sobre aquele “personagem” que viveu, respirou, amou, odiou e deixou seu nome grafado nos anais da História por atos extraordinários. Mesmo porque, se eu pudesse entrar numa máquina do tempo qualquer e eu próprio registrasse através das minhas próprias impressões o que eu estava vendo sobre Gengis Khan, por exemplo, ainda assim seria apenas mais um olhar sobre ele e não a verdade completa e inquestionável.
Vejamos Fidel Castro, por exemplo. A “verdade” sobre ele vai depender do olhar de quem vai registrar a sua biografia. Herói ou vilão é uma questão de enfoque.
Sobre literatura, uma só é a verdade: se o escritor escreve bem ou mal aos seus olhos leitor.
Conn Iggulden, ao meu ver, escreve muito bem, por isso, recomendo-o e ainda voltarei a falar dele outras vezes por aqui.
Confira a sua obra:
Eis um livro!
É verdade, que não daria nunca para dizer que é um abacaxi, ou uma telha, ou algo diferente de um livro. Mas, há livros e livros, como há pneus e pneus.
Quero, na verdade, dizer que esse é um grande livro. (E, também posso dizer, mesmo correndo o risco de ser taxado de infame, que é um livro grande.)
Por sinal, de tão volumoso, há quem diga que ele consegue suprir duas necessidades urgentes do homem moderno: ele informa e entretém, como todo bom livro deve, primordialmente, fazer e, ainda, pode lhe servir como escudo para bala perdida e como arma para se defender de algum malfeitor. Afinal, ninguém iria gostar de levar umas lapadas na cabeça com mais de mil páginas, como, de fato, tem “O mundo sem fim”, do renomado ficcionista britânico Ken Follett.
Ken (quem?) tem umas duas dezenas de títulos que caíram no gosto de leitores em todo o mundo (sem fim!). Ele é um dos autores mais traduzidos da atualidade, teve diversos livros transformados em filmes e mini-séries e é habitué das listas de best sellers, principalmente no fim da década de 90. Follett tem temas como espionagem e a segunda Grande Guerra como a sua seara predileta, basta ver por obras tais como “A chave para rebeca”, “O buraco da agulha”, ” O triângulo”, “O homem de São Petesburgo”, “O vôo da vespa” e ” Jackdaws”. No entanto, seu livro mais aclamado foi ambientado na idade média. “Os pilares da terra” (volume 1 e 2) é o tipo de livro que consegue agradar todo tipo de leitor (menos o ranzinza, é claro! Esse tipo, por sinal, nada lhe agrada e, se, por algum milagre dos céus, algo agradasse, ele diria que não agradou só para não agradar a ninguém!)
“Os pilares” foi lançado em 1989 e ganhou o mundo, atraindo adeptos cada vez mais entusiasmados com o seu estilo de escrita que consegue atrair até o leitor menos habitual. Em 2007, com “O mundo sem fim”, ele repetiu a receita e, de certa forma, deu uma espécie de seqüência ao primeiro livro. Digo “uma espécie” porque, de fato, não há uma continuidade do enredo anterior, mas apenas o enfoque em alguns dos descendentes do livro inicial. Além disso, a temática da construção de catedrais continua nessa nova edição, como também a descrição de costumes do homem medieval.
Sei que “O mundo sem fim”, até pelo seu volume, desestimula certas categorias de leitores, mas recomendo que não se encabulem e não percam de vista que tamanho, de fato, não é documento. Com jeito, vai…
“Não há coisas como livro moral ou livro imoral. Livros são bem escritos ou mal escritos.” (Oscar Wilde)
Li “O jogo do anjo” de Carlos Ruiz Zafòn e gostei. É bem verdade que “A sombra do vento” é melhor do que “O jogo do anjo”. Porém, talvez porque já tivesse quebrado o gelo com o autor no primeiro livro, consegui estabelecer uma interação mais prazerosa com a sua segunda obra e concluí-la completamente atônito.
Na verdade, há quem torça o nariz para qualquer livro que invente de pôr os pés em listas dos “mais vendidos”. Talvez, porque, há quem considere que, se vendeu muito, é por demais pop. E, é claro, tudo que é pop é também passível de causar reações alérgicas agudas às classes de críticos e, sendo quase redundante, pseudo-intelectuais. Eu, particularmente, concordo com Oscar Wilde. Ao menos no que se refere a livros e ao fato de, realmente, só o que importa é se o texto é bom ou não. Se incomoda aos acadêmicos ou experts do ramo que a obra venda bem, certamente, deve ocorrer porque eles ou subestimam o autor ou subestimam o público ou superestimam a si mesmos.
“O jogo do anjo” é um retorno à Barcelona decadente e sombria das primeiras décadas do século XX. Ambiente revisitado, já que o autor catalão também centra na capital da Catalunia a sua obra inaugural. Na verdade, Barcelona é mais do que um cenário propício ou uma moldura para a trama intricada. A cidade funciona mais como um personagem de grande relevância. O leitor será guiado através dos seus becos malcheirosos e vielas tenebrosas pela mão incongruente do protagonista e narrador. É um cego guiando outro, já que David Martim, um escritor atormentado por fantasmas pessoais e de comportamento ambíguo, vive uma confusão interior que contagia sua visão do mundo. Mas, o que realmente impressiona, é o talento do autor em demonstrar como as brumas da velha cidade e do bairro gótico se assentam, placidamente, sobre a arquitetura do texto deliciosamente salpicado de metáforas e de labirintos sinuosos. Na grande maioria das vezes, ele acerta nos empregos dessas figuras de linguagem. Há outras, no entanto, que ele força um pouco, mas nada que vá causar vertigens ao leitor atento.
“O jogo do anjo” é dúbio e envolvente, mas, digo já, caro leitor desavisado: você vai acompanhar o enredo do através dos olhos de um homem perturbado. Não acredite em tudo que vê. Nesse mundo obscuro, tudo e todos podem lhe trair. Até seus próprios olhos.